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domingo, 8 de abril de 2007

8.ª Página Caldense

PORTUGAL CONTEMPORÂNEO
(1.º Volume)


OLIVEIRA MARTINS


Guimarães Editores


Obras Completas
Lisboa
10ª Edição, 1996
ISBN: 972-665-266-9




LIVRO PRIMEIRO
(1826-28)
A Carta Constitucional
3 - Saldanha, o herói
[Páginas 39 e 40]

"Stuart chegou a Lisboa a 2 (Julho) depois de uma longa viagem que protraiu as indecisões, acirrou os ânimos resolutos de ambos os lados, constituiu os corrilhos políticos. Sabia-se que na mala trazia o destino do País; mas um silêncio absoluto, um mistério impenetrável acompanharam emissário. No dia 8 foi para as Caldas, onde a pobre infanta regente sofria tanto do reumatismo, como das insuportáveis cabalas que a Regência e o Ministério urdiam na confusão ainda indeterminável dos partidos que se formavam. (Relations, etc. Stuart a Canning).

Antes de Stuart chegar, já por via de França viera a notícia das medidas tomadas no Rio; mas, ou não se lhes conhecia com exactidão o teor, ou se alterava adrede o que se sabia. O facto é que o próprio ministro Barbacena chegara a informar o general Lobo de que se tratava de uma pura e simples abdicação em D. Miguel, sendo isso participado ao exército. Era corrente que havia uma abdicação e uma CARTA, mas nem o escolhido para a Coroa, nem o texto do novo código se conheciam: daí provinham boatos que faziam de D. Pedro um Anti-Cristo demagógico, e da CARTA uma reprodução da ímpia Constituição de 20.

Transpirou por fim a verdade; e os absolutistas, vendo-se codilhados, declamavam furibundos, ou negavam redondamente, afirmando serem puras invenções dos pedreiros livres as coisas que se diziam, mantendo a versão da abdicação em D. Miguel. Os dias passavam enevoados, indecisos e tristes, como na véspera das trovoadas. Com efeito sentiam-se no ar massas de electricidade política, e de um instante para outro se esperava o fuzilar do primeiro relâmpago.

No Conselho que houvera nas Caldas à chegada de Stuart, a maioria votou contra a publicação da CARTA - uma surpresa! Ninguém a queria, ninguém a pedira. O embaixador da Espanha opunha-se terminantemente. Mas Saldanha, moço ídolo das tropas, já laureado nas guerras dos franceses e nas Américas, e para quem principia agora uma nova história; Saldanha que era o general das armas do Porto, onde as sementes jacobinas ou vintistas germinavam; Saldanha ambicioso e audaz, sabia da verdade dos papéis do Brasil e decidiu-se a intervir com a sua espada, cortando por meio as indecisões das Caldas. Escreve: e como não tem resposta, nem da infanta, nem do ministro Barbacena, envia Pizarro: Se até o dia 31 a CARTA se não jurar, juro-a eu, faço-a eu jurar pelo exército!"
Oliveira Martins

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