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quarta-feira, 25 de abril de 2007

20.ª Página Caldense

Galeria Republicana
Editor e Proprietário: João José Batista
Director: Magalhães Lima
Colaboradores: Augusto Rocha, Alexandre da Conceição, Alves da Veiga, António Furtado, Anselmo Xavier, B. Machado, Costa Goodophim, Gomes Leal, G. Benevides, José J. Nunes, J.M. Latino Coelho, Reis Dâmaso, Rodrigues de Freitas, Silva Graça, Silva Lisboa, Teixeira Bastos, Teófilo Braga, Trigueiros de Martel
Fotografias de António Maria Serra
Número 11 – Junho de 1882 – 1.º Ano

Rafael Bordalo Pinheiro


"O Século, folha republicana, que tenho a honra de dirigir desde o primeiro número, apreciando não há muito ainda, a poderosíssima organização de Rafael Bordalo Pinheiro, escrevia o seguinte:

“Assim como na banalidade politica portuguesa há a figura grotesca e eco de Arrobas, o tigre, no jornalismo peninsular há figura eminentemente viva, original e cintilante de Bordalo Pinheiro, um artista, que vale um exército, um propagandista que vale uma revolução. Bordalo Pinheiro é para a sociedade portuguesa contemporânea o que Tácito foi para o império romano, quer dizer, o seu cronista mais justo e mais indignado. Há no poderoso temperamento deste artista a nota alta e vibrante, que faz lembrar as cóleras de Danton e a eloquência de Vergniaud. È assombroso e é único.

“Cada caricatura deste artista é um grito de revolta contra a conspiração secular do espírito monárquico – fradesco, que fez de Portugal esta nação mole e incaracterística, sem vida, e sem alma, que aí anda à matroca no grande mar da civilização europeia, sem rumo e sem individualidade. Bordalo Pinheiro vinga-nos de toda a esta espantosa decadência, demonstrando quotidianamente, pelas cintilações do seu génio artístico, o que pode ser para a elevação da alma d’um povo um espírito vigoroso e fecundo.

“Bordalo Pinheiro é como artista um revolucionário e como revolucionário um criador.

Com a transcrição destas linhas, quero de antemão, significar aos que me leram que não é meu intuito desenhar aqui o perfil literário de Bordalo pinheiro, mas unicamente criticá-lo sob o ponto de vista revolucionário e demolidor. Será essa a minha missão como homem politico que sou, e é esse também, em meu juízo, o alvo a que certamente mira a Galeria Republicana: - aproveitar dos biografados tudo quanto eles têm produzido de útil e de salutar em favor do ideal moderno, isto é, em favor da justiça e da democracia.

Bordalo Pinheiro e, acima de tudo, um republicano. As suas obras são justamente colossais, pela verdade que encerram e pelo ideal que as inspira. Podia Bordalo Pinheiro ser um sectário ferrenho do monarquismo ou do clericalismo; os seus trabalhos haviam porém, de ressentir-se naturalmente de uma falsa noção de arte, como falsa e mentirosa é também a doutrina monárquica e clerical; o seu génio amortecia irremessivelmente, e a sua faculdade inventiva estiolaria, sem dúvida, à mingua de seiva e de vibração cerebral.

Considerando-se assim, o nosso intento é evidentemente prestar uma homenagem decidida e sincera ao primeiro demolidor português e ao mais ardente e terrível propagandista dos princípios democráticos entre nós.

Insistamos na frase acima transcrita, porque nunca se perde em insistir na verdade: “Bordalo Pinheiro é como artista revolucionário e como revolucionário um criador”.


Data do Calcanhar de Aquiles a celebridade de Bordalo, como o único e já agora inimitável criador da caricatura em Portugal. Na sociedade Portuguesa o seu lugar é perfeitamente correspondente aos ocupados no estrangeiro por Cham, por Gill, por Ortego, por Henry Monier, por Cruiskshand. Em abono da verdade, seja-nos licito notar que, relativamente ao meio, em que vive é a escassez de elementos estéticos, que o rodeiam, Bordalo é superior a qualquer dos supra mencionados artistas, não só pela delicadeza do traço como pela exactidão dos desenhos, não só pela concepção, perfeitamente genial, que preside a todas as suas obras arrojadíssimas, como elo ideal de justiça e de verdade que, em tudo e por tudo, transparece nos seus trabalhos monumentais.

“Depois de alguns meses de correrias artísticas por terras de Espanha – refere conceituadamente o seu inseparável e único companheiro, Guilherme Azevedo – adormecendo ao som de malagueñas e acordando ao ruído das fuziladas, Bordalo Pinheiro volta a Lisboa e desenha então A Lanterna Mágica em que as suas supremas qualidades de caricatura se acentuam definitivamente.

“Da mesma forma que Henry Monier criada em França, dando-lhe formas lineares, sensíveis, o tipo de Joseph Prudhomme, a encarnação do espírito constitucional e burguês da França, Rafael Bordalo cria na lanterna Mágica, o Zé-Povinho, a representação simbólica da ingenuidade lorpa da sua terra.

“Isto é, Bordalo Pinheiro, achara, como um supremo artista, a fórmula exacta, representativa do estado social e político de Portugal, da mesma forma que Henry Monier, achara a da França”.

Da vastíssima galeria de tipos, criados e iluminados pelo lápis cintilante e sempre fecundo de Bordalo Pinheiro, é seguramente Zé-Povinho, um ingénuo, um eterno explorado pela corrupção monárquica e clerical do nosso tempo, o tipo mais completo e mais bem acabado. Zé-Povinho, na sua encarnação lorpa e boçal, não é apenas uma figura qualquer, feita para despertar o riso e a gargalhada das multidões. Longe d’isso, ele por si personifica uma sociedade aviltada pela opressão dos grandes e dos poderosos em que o abuso é lei, a imortalidade norma de vida, e a ignorância e a miséria o único fim dos governos, quer há perto de sessenta anos nos tem espoliado e escravizado em proveito da cúria romana ou do estrangeiro.

Bordalo Pinheiro, criando este admirável tipo, fazendo girar todos os acontecimentos nacionais em redor d’um personagem, tão profundo de verdade como generoso e grande nas intenções e no espírito, provocou por si a anarquia no existente e proclamou bizarramente o realismo na arte e a dignidade na politica.

É por isso que o António Maria e o Álbum das Glórias, são hoje das publicações mais notáveis do mundo – precisamente porque representam uma obra justa, uma obra verdadeira, uma obra humanitária, uma obra de emancipação política e social. E por isso é também, que o povo – a grande massa produtora e trabalhadora por excelência – consagra a Bordalo pinheiro a mais viva simpatia e o mais desinteressado entusiasmo – precisamente porque ele é apostolo sincero de uma causa santa, e porque é o campeão audacioso dos seus direitos ultrajados e das suas liberdades escarnecidas. Mais tarde, quando a história, no seu juízo recto e inflexível, tomar conta d’esta época, há-de apurarem Rafael Bordalo Pinheiro uma consciência altiva, um espírito soberano, que soube compreender, identificando-se com eles, o ideal dos que sofrem e a aspiração dos que anseiam por um reinado de luz e de bem estar social. E nem mais é preciso para a imortalidade de um artista ante a história e ante a consciência humana! Bordalo Pinheiro conseguiu já o que a poucos tem sido dado conseguir na vida –o ser um imortal perante as gerações presentes e futuras!...

A caricatura no desenho, como a ironia na literatura, como a opera cómica no teatro é perfeitamente do nosso meio e do nosso tempo. Rafael Bordalo é, sobretudo, um artista de uma actualidade palpitante; vivo, rápido; originalíssimo na conversação, amando por igual o imprevisto e o extraordinário, de uma dedicação única, como amigo e como companheiro. É um intransigente, que procura satisfazer a sua consciência, pondo procura satisfazer à sua consciência, pondo invariavelmente de parte os seus interesses e as suas conveniências pessoais. Foi por isso que no Brasil não fez fortuna, e é por isso que em parte alguma do mundo logrará fazê-la, estou convencido.

Impressionável por temperamento, como todo o artista, há nele todavia um traço que o caracteriza salientemente – a compreensão nítida dos seus deveres, como homem e como revolucionário. Para Bordalo, assim como para nós outros, os republicanos, há princípios que se defendem e injustiças que se combatem. E neste sentido, por tal forma ele tem preenchido a sua missão na sociedade portuguesa que conseguiu já ser um homem temido e perigosíssimo, o máximo a que se pode aspirar num pais, bestializado pelo fanatismo religioso e nunca assaz explorado pelos comilões do orçamento monárquico…

Muito ao correr da pena ai fica um dos traços fisionómicos deste grande revolucionário, deste eminente artista, tal e qual o fantasiámos na nossa humildade politica. Não nos pertence a nós certamente o encará-lo por outro lado diverso do que aquele por que o fizemos nesta ligeira apresentação. Escritores abalizados se têm ocupado d’ele com respeitosa admiração. Pertence a história de todos os povos. O que d’ele se tem escrito é nada, relativamente ao que do seu extraordinário trabalho está ainda por escrever.

No dia 13 do corrente mês faz três anos que O António Maria, o valente soldado da revolução portuguesa, saiu pela primeira vez à luz da publicidade. Cabe-nos deste modo a honra de enviar d’aqui d’envolta com a nossa saudade profundíssima por Guilherme de Azevedo, um cronista inimitável e um amigo nunca esquecido, as nossas mais ardentes felicitações ao nosso querido amigo, ao grande e benemérito artista Rafael Bordalo pinheiro. – Que ele as recebe tão sinceras, como sincera é a admiração que lhe consagramos."
Magalhães Lima


[Este texto apresentado a 3 colunas, ocupa a página de rosto e a segunda página. Colocado a meio da página de rosto, uma fotografia de Rafael Bordalo Pinheiro, colada. Cada número deste jornal – dos que nos foi dado consultar – anos de 1882 – 1.º ano e 1883 – 2.º ano, é composto por quatro páginas, todas elas com uma cercadura rectangular que apresenta aos cantos elementos de fantasia decorativa. Dimensão: 25 x 33 cms. Nos exemplares consultados existe uma página de rosto anual para cada ano.]

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