CAVACOS DAS CALDAS II

DICIONÁRIO GRÁFICO BORDALIANO

alguns livros, cerâmicas, belos gatos e algo mais...



quarta-feira, 25 de março de 2009

364.ª Página Caldense

MUSEU DE JOSÉ MALHOA
Roteiro
Mercado das Caldas da Rainha, 1940
Alberto Sousa
Aguarela 38x54 cm
[Página 62]

[Museu de José Malhoa. Coordenação Matilde Tomaz do Couto / Clara Mineira. Edição: Instituto Português de Museus. 1.ª Edição - Julho de 2005. ISBN 972-776-221-2]

terça-feira, 24 de março de 2009

Convite

Os alunos da Escolal Raúl Proença da área projecto, consideraram como objecto de estudo a obra do Ferreira da Silva - Jardim das Águas - a crescer junto ao Hospital e perto do Chafariz das 5 Bicas.

Dão-nos a conhecer o seu trabalho e propostas apresentando o projecto denominado Cidade das Águas - Projecto de Requalificação Urbana, na próxima quinta feira - dia 26 de Março - pelas 22.00 horas, no Cheap n'Chic Café do CCC.

A não deixar de participar.

sábado, 21 de março de 2009

Efeméride

Há precisamente 163 anos nasceu - na Rua da Fé em Lisboa - Rafael Bordalo Pinheiro.
A Actualidade
Fantasia
A indiferença mascara a miséria

Primavera


Uma memória de luz ou pequena dissertação sobre a Primavera

Uma tarde estava eu na Ilha de Murano
A ver o esplendor do fogo das forjas
De onde saem peixes, relógios e cavalos
Quando me lembrei da força da terra
Não da terra propriamente dita, o planeta
Mas a terra de onde viemos e nos espera

Terá sido porque tinha estado em Burano
E no caminho vi o cemitério de Veneza
Cruzando a força das rendas das mulheres
E das redes dos pescadores dessa laguna
Com a fragilidade das flores mais secas
Sobre as pedras com as datas e os nomes

Lembrei-me mais da Primavera nesse lugar
Onde a terra era tão escassa e o mar imenso
No sono dos pequenos barcos no nevoeiro
No sossego interrompido pelos navios de luxo
Que descem o Adriático ao som da música
Mais fria, pobre e triste que se pode imaginar

Lembrei-me mais do cortejo do trem do cuco
Quando as coisas mais velhas e mais feias
Enchiam todos os carros de bois em desfile
Por entre os risos dos homens de barrete
E a desaprovação das mulheres velhas à porta
Porque havia ali coisas ainda boas de servir

Lembrei-me mais das fogueiras antigas
Nessas noites de cortejo no nosso Largo
Onde o Pelourinho é memória de justiça
E os rapazes mais velhos não deixavam
Que os pequenos saltassem a fogueira
Porque tudo tem o seu tempo na vida

Lembrei-me mais da nossa primeira festa
Que era sempre no Domingo de Pascoela
No Lugar da Granja Nova onde eu ia a pé
E o primeiro arroz de ervilhas da minha avó
Com o coelho do meu avô e dos meus tios
Era comido pelos músicos à beira do rio

Lembrei-me das nossas procissões à tarde
Quando eu segurava a naveta do incenso
E o turíbulo tinha brasas da nossa lareira
Que o meu tio ia buscar sempre a correr
Porque tinha o casaco de músico para vestir
Tocava trompete e fazia falta na filarmónica

Lembrei-me mais das festas de arraial
As gasosas a subirem do poço num cesto
A frescura nada tem a ver com frigorífico
Quando o vinho tinto amolecia as cavacas
E só assim o menino que era eu as comia
A olhar o coreto rodeado de sol e de pó

Lembrei-me mais de eu ser tão pequeno
E toda a gente na família me dizia
Para me levantar cedo e eu falhava
Não sejas lapão não deixes entrar o Maio
Repreendia a minha avó todos os anos
Sem nunca me explicar esta sua fala

Lembrei-me mais de ir ao Vale de Água
Para trazer os vários ramos da Primavera
Para nós, para a Tia Velha, para a Ti Zabel
Será por isso que ainda hoje no Chiado
Há quem venda estes ramos a alto preço
E um vai logo para o meu neto em Londres

Será isso hoje a Primavera possível
Um ramo num envelope almofadado
Ingénua maneira de prolongar o tempo
Que flutua numa memória qualificada
Mas não existe na verdade no campo
Onde se vive o esplendor dos pesticidas

Afinal nem tudo se perdeu, nem tudo caiu
Como eu não percebia as falas da minha avó
O meu neto vai demorar a perceber o ramo
Que ele possa chegar ao Outono como eu
Com o fogo da Primavera no seu olhar
E uma memória de luz onde tudo continua


José do Carmo Francisco


Poema, oferta do José de Carmo Francisco neste primeiro dia de Primavera. As flores são da Margarida Araújo. Que bom que é ter amigos com sensibilidade e arte. Um abraço carinhoso aos autores. Aos leitores uma saudação primaveril, num braçado de flores.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Raphael

A obra do "velho" mestre revista por uma nova geração de artistas. A visitar.
João belga . José pires . Luís nobre. Miguel telles da gama .
Paulo tuna . Pedro bernardo . Vitor reis
21 de Março - 25 de Abril de 2009
inauguração 21 de Março 18h00
Fundação Bernardo
Rua Eng. Duarte Pacheco, 16 - 1.º E / 2500 Caldas da Rainha

quarta-feira, 18 de março de 2009

Lembrete


Lembramos que é já no próximo sábado o jantar do 1.º Encontro de Bloggers do Oeste. As inscrições podem ser feitas utilizando o email deste blog ou o do "Água Normas" do amigo Zé Ventura. O jantar está programado para as 20.00 Horas, no Zé do Barrere, Travessa da Cova da Onça, bem no coração da cidade. Claro está, que o blogger pode levar companhia. Todos serâo bem vindos.

segunda-feira, 16 de março de 2009

363.ª Página Caldense

V Exposição Agrícola Pecuária e Industrial das Caldas da Rainha
A Margarida Araújo é sempre portadora de boas notícias. Nas suas deambulações fotográficas deparou com um conjunto de fotografias da autoria de Mário Novais, referentes à V Exposição Agrícola Pecuária e Industrial das Caldas da Rainha, realizada em 1927. E com a generosidade que lhe é habitual, partilhou essa informação que está alojada em
http://www.flickr.com/photos/biblarte/

Eis as fotografias:























Fotografias dos tempos em que a agricultura, a pecuária e a indústria das Caldas da Rainha, tinham peso a nível nacional... coisas passadas.

sábado, 14 de março de 2009

Pré Publicação

José de Carmo Francisco enviou-me a sua crónica "O homem que morreu à espera do comboio das Caldas". Não resisti. Aqui vai a sua pré publicação. Espero que o autor me perdoe a ousadia. Era irresistível ...

ESTRADA DE MACADAME – José do Carmo Francisco
CLXXXII - «O homem que morreu à espera do comboio das Caldas»

No tempo da «estrada de macadame» eu andava muito de comboio. Vinha com a família do Montijo de barco, fazia a Rua do Ouro a pé e apanhava o comboio no Rossio às 17h 20m para chegar às Caldas (à tabela) às 19h 20m para apanhar a carreira dos Capristanos que ia à estação da CP buscar os passageiros. E não esperava um minuto porque a carreira (como os médicos) nunca espera pela gente, nós é que esperamos por ela.

Quando fui para a tropa em Abril de 1972 fazia muitas viagens porque vivia em Lisboa desde 1966 e vinha a casa no sábado mas apanhava de novo o comboio para as Caldas no domingo à tarde porque ia ainda jantar com os meus avós a Santa Catarina apanhando depois a última carreira para as Caldas às 22h 30m ainda a tempo de entrar no Quartel antes do recolher da meia noite.

Para mim a degradação do «comboio das Caldas» terá começado quando o tiraram da estação do Rossio e o levaram para o Cacém. Agora, segundo sei, parte de Meleças o que ainda é mais fora de mão. Jacinto do Prado Coelho falava sempre com muita ternura desse comboio que apanhava aos sábados à tarde no Verão depois de dar aulas a alunos estrangeiros para arredondar o fim do mês entre Lisboa e São Martinho do Porto.

Descobri uma história espantosa num livro de memórias de jornalistas. Trata-se de um depoimento de Belo Redondo que recorda o dia 14 de Dezembro de 1918, o dia em que Sidónio Pais foi assassinado na estação do Rossio. Alfredo da Silva Rei era corcunda, tinha 22 anos e era conhecido como o marreco do Casal Ventoso. Fazia fretes aos passageiros e ia entregar o dinheiro à sua mãe que morava numa viela do Casal Ventoso. De um momento para o outro e por um acaso do azar passou a ser o cadáver nº 6347 do Necrotério de Lisboa. Mas passemos às palavras de Belo Redondo: «Nessa noite o Rei apareceu na estação do Rossio para a vida habitual. Era um sábado e tudo lhe indicava que iam ser rendosas aquelas horas. O rápido do Porto e o comboio das Caldas haviam de trazer-lhe, certamente, gente que quisesse alguns fretes ou alguns despachos de bagagens. E a fiscalização devia ser nula, facto essencial para ele que não tinha a licença policial. Os jornais anunciavam que o presidente da República seguiria para o Porto às 23h 30m e a Polícia, preocupada em defender a vida de Sidónio Pais e manter a ordem na estação, daria tréguas, sem dúvida, aos moços que enxameavam a ante-gare. O corcunda exultava de contentamento, enquanto os guardas, de luvas e cordões brancos, iam organizando as alas de povo, por entre as quais havia de passar o Chefe de Estado. Às 23 horas eram já muitos os homens de todas as classes que se aglomeravam desde as escadinhas do Duque até á gare. A imprensa preparara o ambiente a favor de Sidónio Pais e o recente atentado de Belém quase que fizera esquecer os erros e os crimes da entourage do presidente. A Polícia não confiava porém muito na atmosfera de simpatia que rodeava o ditador e estabelecera uma rigorosa vigilância desde o palácio de Belém à estação. Os agentes à paisana vigiavam tudo e todos, enquanto a multidão impaciente ameaçava a todo o momento romper os cordões de guardas que a continham. Alfredo Rei, o corcunda, não percebia dessas coisas da Política mas tinha um desejo enorme de ver aquele viajante tão ansiosamente aguardado e foi, com outros, postar-se num dos frisos da janela da ante-gare». Depois foi o que já se adivinha: estava à espera do comboio das Caldas e acabou sendo o cadáver 6347 do Necrotério. A Polícia desconfiou dele e matou o pobre marreco.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Blog Ephemera


Por Indicação do João B. Serra fui visitar o EPHEMERA, o novo blog de José Pacheco Pereira.

Segundo o seu autor:

"EPHEMERA tem como objectivo divulgar materiais da biblioteca e arquivo pessoais de José Pacheco Pereira, em particular dos diferentes espólios, doações, ofertas e aquisições que deles fazem parte. Na medida do possível, do tempo e das circunstâncias, todos estes materiais estão acessíveis aos investigadores que deles necessitem para o seu estudo e trabalho, nos condicionalismos normais de uma biblioteca e arquivos privados. Dada a dimensão e qualidade de alguns dos materiais, em particular as espécies únicas e as colecções especializadas inexistentes em bibliotecas e arquivos públicos, o meu objectivo, a prazo, é tornar disponível a todos este acervo."

Blog a visitar e abusar.

362.ª Página Caldense


ARTE – FEVEREIRO DE 1905 – 1.º ANO – NR. 2


“Todos os dias, quase que cada instante, ora de serrote, ora de chofre, sem nunca se cansar, vai a morte empurrando para o túmulo, e parece que de preferência aos maus e aos inúteis, aqueles que privilegiados pela natureza, concentram em si toda a vida física de uma sociedade ou de uma época.

Se ao menos para atenuar a dor que a sua perda nos causa, ficassem ou viessem outros para continuar a sua obra de paz e de amor, de bem e de luz, de beleza e de harmonia; se com o desaparecimento de tais vultos não se rarefizesse na alma de um povo a sua atmosfera intelectual e vitalizante, ainda uma consolação nos restava.

Mas, quem como Antero, o poeta filósofo, comporá agora tão dolentes sonetos?

Quem como João de Deus, esse eterno amiguinho das crianças, nos dará versos mais líricos?

Virá um moderno Camilo com a mesma fecundidade e a mesma pureza de linguagem?

Difícil será brilhar novamente no Olimpo das letras um génio como o autor do Mandarim.

Da cátedra de lente não preleccionará com mais eloquência nem com mais autoridade um vindouro Sousa Martins.

E o necrológio não finda aqui.

As dores de alma que de continuo nos acabrunham o espírito, as saudades que perenemente nos enublam o coração, mais uma dessas mágoas e mais uma outra dessas delícias que doem, nos surpreenderam agora com o passamento do admirável e extraordinário artista – Rafael Bordalo Pinheiro”.

O meu agradecimento ao Victor Pires pela partilha desta bibliografia bordaliana

terça-feira, 10 de março de 2009

A Alma do Gato

Um sábado destes, a manhã decorria lenta e fria, quando um casal entrou na livraria.

Até aqui nada de estranho.

A senhora trazia na mão esquerda uma revista enrolada em canudo e, com a mão direita de quando de quando alisava as suas páginas.

Com uma certa timidez entabularam conversa. Seria esta a livraria que tinha uns gatos, conforme a história contada na revista – já para aí há uns dez anos – que tinham entre mãos?

Sim era. Mas a que vinham, por favor?

O casal contou a sua história. Durante muitos anos tinham tido um gato siamês, considerado como amigo e a que os ligava uma grande ternura. Esse gato, seguindo a inexorável lei da natureza, tinha falecido. A sua falta tinha sido muito sentida. Fizeram um luto de dois anos e sentiam-se agora preparadas para arranjar um novo amigo que lhes fizesse companhia nos frios serões do norte.

Tinham lido naquela revista – um exemplar antigo da “Tempos Livres” – uma entrevista minha à jornalista Lurdes Féria, onde eu falava com entusiasmo, da minha relação com os gatos que viviam na Livraria. Numa página da revista, uma fotografia minha com o gato Gil Vicente ao colo.

Gil Vicente surgia em toda a sua imponente beleza, olhando fixamente com os seus enormes e tão misteriosos olhos verdes. Verdadeiramente sedutor na sua pose de estrela.

Que desejava o casal? Perguntar-me se por acaso e fortuna, o Gil Vicente tinha deixado descendentes, pois tinham resolvido escolher para companheiro um gato da estirpe livreira caldense.

Desiludi o casal. O Gil Vicente não tinha deixado descendentes. Herdei a memória da sua ternura, a saudade do seu carinho, a lembrança da sua teimosia…

E quem sabe? A sua alma, desenhada em formas enigmáticas, erguendo-se de um gato bordaliano, captada pelo oportuno sentido do belo da Margarida Araújo...


segunda-feira, 9 de março de 2009

361.ª Página Caldense

OBRAS POETICAS DE NICOLÁO TOLENTINO DE ALMEIDA
(Tomo II)

"Ao Excellentiffimo Senhor D. Lourenço de Lima, tendo promettido ao A. que quando chegaffe das Caldas , havia lembrar a mercê de fe imprimirem eftas Obras.

CARTA

Ora do cume dos Montes,
Ora em fuas verdes fraldas,
Hia eftender os meus olhos
Na longa eftrada das Caldas;

[...]
Então carrancuda Noite
Me enxotou co'as negras azas;
E em honra dos taes Amigos
Vim como Gato por brazas;

[...]
E Vós, firme Protector,
Fazei que por taes favores
Vamos beijar-vos a Mão,
Eu, e os dois mil Crédores."

[Nota: Esta carta é composta por 24 quadras, ocupando parte da página 188 e as páginas 189 a 194, a 4 quadras por página. Mantive a grafia original; a sua leitura torna-se torna-se fácil se substituirmos os ff por ss. Em nota de rodapé somos informados que A., referido na dedicatória, tinha sido nomeado Oficial de Secretaria. Numa determinda época da sua existência, estas Obras Poeticas pertenceram a Eduardo Katzebnstein, identificado por um ex-libris verde e que tem por imagem central um gato.]

[Obras Poeticas de Nicoláo Tolentino de Almeida. Tomo I e Tomo II. Lisboa, na Regia Officina Typografica. Anno M.DCCCI. Com licença da Meza do Defembargo do Paço.]

sexta-feira, 6 de março de 2009

360.ª Página Caldense

O TRIPEIRO
2.º ANO - NR.º 50 - 10 DE NOVEMBRO DE 1909

Um Ramo de Flores
Páginas 217 e 218
Artigo assinado por Eduardo Sequeira
Ilustração de Rafael Bordalo Pinheiro

[…]
"Rafael Bordalo Pinheiro, em companhia dos representantes dos jornais de Lisboa, veio assistir às festas portuenses e buscar assunto para as páginas hilariantes do António Maria, onde fustigou os ridículos das manifestações sindicateiras e despiedadamente troçou, em alfinetadas para sempre celebres, um pretendido atentado contra o poeta Gomes Leal, então, como hoje e sempre, fero inimigo de todas as testas coroadas.

Bordalo Pinheiro enquanto se hospedou no Porto, foi positivamente o menino bonito de toda a mocidade literária e divertida do norte do país, que positivamente o trouxe ao colo, especialmente em uma visita a Braga, que só por si merecia pormenorizado relato, se o assunto não estivesse fora da justa orbita onde navega O Tripeiro.[…]

[O Tripeiro. Repositório de notícias portucalenses, publicando-se nos dias 1, 10 e 20 de cada mês. Director e Proprietário: Alfredo Ferreira de Faria. Administração e Redacção: Rua Formosa, 199 Porto. Composto e Impresso na Cooperativa Graphica. Gravuras do Atelier de Gravura Chimica.]