CAVACOS DAS CALDAS II

DICIONÁRIO GRÁFICO BORDALIANO

alguns livros, cerâmicas, belos gatos e algo mais...



domingo, 8 de abril de 2007

7.ª Página Caldense

OCCIDENTE
REVISTA ILLUSTRADA DE PORTUGAL E DO ESTRANGEIRO
10.º Ano - Volume X - N.º 321 - 21 de Fevereiro de 1887

Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha

"São já bem conhecidas do público os produtos da nova fábrica de faianças das Caldas da Rainha, dirigida pelo notável artista Rafael Bordalo Pinheiro, produtos que Lisboa admirou, na exposição feita o ano passado, nas salas do "Comércio de Portugal" e que actualmente se acham expostas no depósito da mesma fábrica, na Avenida da Liberdade.

A antiga loiça das Caldas, tão preconizada pela sua originalidade, mas que deixava bastante a desejar enquanto a beleza e arte, era susceptivel de melhorar consideravelmente, de se transformar até, dando-lhe uma nova feição, em que a par da melhoria do fabrico, com respeito à sua pureza e finura, se lhe juntasse a arte e o bom gosto.

Pensou nisto Bordalo Pinheiro, e para o conseguir, organizou uma sociedade por meio de acções com o capital de 100:000$0000.

Estava sociedade achava-se organizada, em Junho de 1884, sendo seu gerente o sr. Feliciano Bordalo Pinheiro, que logo partiu para o estrangeiro a adquirir máquinas apropriadas para o fabrico das faianças e a estudar os diferentes sistemas de fornos, uma das coisas mais importantes para a fabricação.

Ao mesmo tempo principiava nas Caldas da Rainha a construção do edifício da fábrica, para o que se compraram por 2:000$000 uns terrenos ao sul da vila, e de extenção de 8 hectares.

Estes terrenos encerram importantes jazigos de argila e tem água abundante de um ribeiro que os atravessa.

A construção e disposição da fábrica revelam logo o gosto que presidiu à obra. Aproveitou-se vantajosamente o acidentado dos terrenos, e construiu-se uma ponte rústica de 90 metros sobre o ribeiro que corta os referidos terrenos, para serventia da fábrica, cujo edifício principal se acha representado na nossa gravura.


Como se vê reuniu-se ali o útil e o agradável. Este edifício, de arquitectura japonesa, está assente no meio de um jardim arborizado, onde se vêm vasos de produção da fábrica.

A construção singela tem toda a elegância e novidade que no nosso país oferece este género de arquitectura, aliás muito bem escolhido, tratando-se de uma fábrica de faianças, indústria de que a China é produtora por excelência.

N'este edificio acham-se as oficinas de loiça artistica e de modelação, havendo também a sala de exposição dos produtos da fábrica.

As outras oficinas destinadas ao fabrico da loiça comum, tijolos, telha e azulejos, assim como três fornos ordinários de tijolo, três ditos tipo português para telha, azulejo, etc., e um grande forno sistema Minton, acham-se dispostos numa área de 2:733 metros quadrados, ligando estas oficinas uma linha férrea de aproximadamente mil metros de extensão.

Todo o tijolo, telha e azulejo, empregados nestas construções foram produzidos na própria fábrica, pelo que se pode calcular o grande alcance desta indústria, que tanto produz a esplêndida loiça artística com que nos encanta, como o tijolo e telha de tão vasto consumo.

O desenvolvimento desta indústria, uma das mais naturais do país, é, pois, assaz prometedora para os capitais nela empregados.

Por um acordo feito entre a empresa e o governo, vai ser estabelecido nesta fábrica uma escola de ensino artístico, tendo uma outra de instrução primária para um determinado número de alunos.

Por isso foi dado pelo governo um subsídio, satisfazendo assim mais economicamente a necessidade de uma escola artística nas Caldas da Rainha."

[Artigo não assinado]


Sem comentários: