Partilhando leituras

Livros sobre Caldas da Rainha, Rainha D. Leonor, Bordalo Pinheiro, caricaturas,

cerâmicas, gatos e algo mais...

sexta-feira, 29 de maio de 2009

384ª. Página Caldense


"As Caldas commercial
industrial, qualquer dia
em pouco estarão tornadas
em succursal da Turquia.

Turca será a sua loiça
os seus montes, as suas faldas
as cavacas e as canastras,
'te p'ra nada lhe faltar,
a própria agua das Caldas.

e a D. Iniciativa
então de todo dolente
chorará as suas maguas,
na cama, que é parte quente."

in: Cavacos das Caldas, nº. 27, 5 de Agosto de 1897, Página 9, Belisáio

quinta-feira, 28 de maio de 2009

383ª. Página Caldense

PARA AS ELEIÇÕES
Receita para fazer deputados de recheio, segundo o formula do grande politico Matta
(António Maria, humilde discipulo do grande cosinheiro offerece aos leitores.)
Tomam-se alguns candidatos depenados e limpos, como é costume encontral-os debaixo da arcada, á porta do ministerio do reino.

Tiram-se-lhe os ossos do peito da seguinte fórma: desconjunta-se o osso que está junto ao papo, e com o dedo se lhe vae despegando a carne pelo interior até que o osso sai limpo.

Depois empernam-se, puxam-se


e estendem-se ao comprido em frento dos leitores (ás vezes elles mesmos á que se estendem).

Lardeiam-se com tirinhas de discursos e depois mettem-se nos competentes circulos, á falta d'outras caçarolas em que caibam.
Devem tapar lhes o fundo duas cenouras, alguns graos de pimenta (na aza) e bastantes quartilhos de vinho, branco ou tinto.




É preciso que o candidato fique sobretudo muito bem regado, com sal suficiente e o competente dentinho d'alho picado. O circulo ou caçarola leva-se tapado ao forno da egreja matriz.
Depois de alguma coisa passado, tira-se toda a gordura e todas as banhas que tiver na algibeira. E serve-se quente. Ou então frio, á vontade do freguez.



Eis o petisco a que no banquete constitucional se chama o pudim do suffragio.

Rafael Bordalo Pinheiro
O António Maria, 9 de Outubro de 1879, página 137

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Bordalo Graffitado

“O amor surge naquela existência como uma claridade súbita que vai iluminar tudo. Matricula-se na Academia de Belas Artes, matricula-se no Curso Superior de Letras. Estuda? Não sei. Em todo o caso faz caricaturas à ponta de charuto nas paredes desses mesmos estabelecimentos do Estado, e, os que as vêem, param, riem, vão chamar outros para rirem juntos, vão depois a ele para o abraçar…
- Magnífico!
- Tu é que fizeste isto?
- Está bem bom!
- Faze lá este, faze lá aquele… Soberbo!

- És artista!...
E, como o coro antigo, ele principia a ouvir de todos os lados.
- Tens talento!...
Ah! Grande consolação dos que quase sempre são fadados para não terem nenhuma outra! Dessa mesma se desconfiará mais tarde: mas aos vinte anos, que doçura, que calor, que luz, que bem suavíssimo e balsâmico, que incitamento, que coragem dada nessas palavras:
- Tens talento!”

Prefácio de Júlio César Machado, in: Álbum de Caricaturas Frases e Anexins da Língua Portuguesa de Rafael Bordalo Pinheiro, 1876


Ao entardecer, uma grande tela de um branco baço, apoiada num candieiro da rua deserta, suscita a curiosidade.

Para que servirá? E quando a esta superfície se juntam mais três, também brancas e de consideráveis dimensões, agudiza-se a curiosidade.
São dez da noite e contrastando com o negro do céu e o cinza do empedrado da rua estas extensões sem cor provocam a imaginação dos ainda raros passeantes.

Nada de misterioso se passa. Vai dar-se início a uma perfomance integrada na já tradicional Caldas Late Nigth levada a cabo pelos alunos da Escola Superior de Arte e Design, que todos os anos, por três dias do mês de Maio, descem à cidade e a transformam com as suas intervenções artísticas.

O passeante depara com as mais variadas perfomances. Algumas, talvez a maior parte desinteressantes q.b., e um punhado delas de assinalável qualidade artística.

Mas deixemos a crítica para os críticos e voltemos à noite da última sexta feira.


Na Rua Heróis da Grande Guerra em frente à Livraria, Rafael Bordalo Pinheiro regressa às Caldas da Rainha.

Regressa, recriado por um processo de intervenção artística, tida como contemporânea, mas tão antiga como a criatividade humana: o graffiti.

Nos placares começam a surgir os primeiros contornos em cores fortes de acordo com a personalidade do artista inspirador do tema.

Trabalho de minúcia, delicadamente contornado a mão certeira.

E ao longo das horas que se seguiram a obra ganhou forma, completada em quatro painéis, feitos de imaginação cor e talento.


Os noctívagos paravam, comentavam, tiravam fotografias.

Uns tantos, mais distraídos comentavam: aquele bigode é do Eça; outros, com mais sentido poético, auguravam: - Fernando Pessoa? Na pressa da passagem nem liam o nome desenhado a cores de fogo: Bordalo Pinheiro.


Na rua das Montras umas tantas caixas com a sinalética da Fábrica Bordalo Pinheiro convidavam o passeante à construção de puzzles interactivos. Play Box estabelecia uma surpreendente interacção com os que vadiavam pela arte.

Pelas três da manhã a obra foi dada por concluída. Diga-se em abono da verdade, que com muito custo; porque aos verdadeiros artistas falta sempre um último toque!
Apagam-se as luzes. Fecho a porta da Livraria no desejo sincero de a tornar a abrir sempre que for necessário dar apoio às intervenções de rua que dão vida à cidade.
Os meus parabéns e agradecimentos ao Nicola, ao Filipe e ao André por me terem dado a oportunidade de participar nesta acção evocativa do grande criativo que foi Mestre Rafael Bordalo Pinheiro.
Noto agora que num dos painéis, Bordalo Pinheiro de fidalguesta figura interroga-se: Modernices? Enquanto isso um Zé de mãos nuns bolsos (vazios ?) olha de revés para um dos ícones da modernidade (?) caldense.





Na manhã de sábado a cidade surge enublada e triste. Com uma excepção: a minha rua, onde Rafael Bordalo Pinheiro grafiteiro, se tinha feito grafitar.


E os artistas? Quem são eles?

Caldas Late Night
22 de Maio de 2009, Rua Heróis da Grande Guerra

Darwin à Conversa

Tertúlia Art&Ciência

Paulo Trincão fala sobre Darwin

Salas Multiusos - 21,30 Horas

27 de Maio -Quarta feira
Centro Cultural e de Congressos

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Caso ou Não Caso? Eterno dilema ...

Casamento nas Caldas da Rainha
Joshua Benoliel

«Já cá tomara eu tar casada!»

Menino pequeno entre gente grande durante muitos anos, cedo me habituei a ouvir as histórias dos mais velhos. No tempo da «estrada de macadame» era assim: sem luz eléctrica, sem rádio, sem televisão, sem cinema, as histórias eram contadas de boca em boca à lareira ou nos trabalhos do campo, pelos mais antigos da família. No meu caso, ouvinte atento, lembro-me de diversas histórias, uma delas passada com um grupo de mulheres na Casa Grande – o outro nome da Quinta. A protagonista era uma rapariga nova, a mais nova do rancho que, tão iludida estava com a mudança próxima do seu estado civil, não se cansava de dizer: «Já cá tomara eu tar casada!» Quando as outras, todas casadas e mais velhas, lhe perguntaram porquê, ela respondeu: «A gente depois de casar já não anda os dias fora!». Ela não percebia a evidência de que todas no rancho da Quinta eram casadas. Olhava mas não via. A cegueira da paixão não deixava.

A minha avó Flauta contava uma história a propósito dos casamentos que metia um aprendiz de carpinteiro do meu avô Zé Penas e do seu amigo Zé Lourenço das Relvas. Ao princípio o rapaz andava triste porque no primeiro fim-de-semana trouxe a ceira com a ferramenta da Malasia para Santa Catarina mas com pedras; a ferramenta ficou na casa do dono da obra. Era uma brincadeira habitual que todos faziam a todos, uma espécie de baptismo. Mas aos poucos esqueceu a brincadeira dos mais velhos e começou a desabafar as coisas da sua vida com aqueles dois homens já feitos e com filhos da sua idade. Aquilo começava sempre da mesma maneira:

«Tio Zé Lourenço, tenho andado cá a pensar, não sei se me case, se não me case… O que é que vocemecê diz?» Respondia o Tio Zé Lourenço: «Atão casa-te!».

Pouco tempo depois ele dizia: «Tio Zé Penas e se vem aí um Inverno rigoroso, que nos obriga a perder dias e dias?» Respondia o meu avô: «Não te cases, atão!»

Voltava ele à carga: «Vocemecê diz bem mas o pior é que um homem solteiro é um maltês!» Saltava o Tio Zé Lourenço: «Atão casa-te!».

Mas o aprendiz não desistia: «E se a minha patroa for da raça de ter um rancho de cachopos?». Respondia o meu avô: «Não te cases atão!».

Nova pergunta do rapaz: «E quando a minha mãe fechar os olhos? Quem é que me cozinha umas batatas e me cose uns botões?». Respondia o Tio Zé Lourenço: «Atão casa-te!» Mas o rapaz estava imparável: «E se eu me casar com um estupor que se porte mal? Já viu, Tio Zé Penas, a figura que um homem faz?» E logo o meu avô: «Não te cases atão!». Nova pergunta do aprendiz: «E se eu ficar solteiro toda a vida e tiver uma doença? Chamo o doutor Bertolino mas quem é que me trata?» Dizia o Tio Zé Lourenço: «Atão casa-te!». Mas ainda não chegava, ele voltava à carga: «Você diz bem mas se for ela a adoecer? Chamo o doutor Bertolino mas tenho de perder tempo a tratá-la e deixo de ganhar a jorna. Já viu?». Respondia o meu avô: «Não te cases atão!»

Esta é uma história sem fim porque se pode sempre acrescentar uma pergunta. Quando passo na Malasia lembro-me logo do aprendiz e da bonomia do Tio Zé Lourenço das Relvas. Mais expansivo, o meu avô dizia: «Ah fado dum ladrão!». Tantos anos depois a minha única certeza relativa é a que escrevi num poema – «Todos dormimos sozinhos / mesmo em cama de casal».

O meu agradecmento ao José do Carmo Francisco pela partilha desta crónica saborosamente saloia, publicada na sua rubrica Estrada de Macadame na Gazeta das Caldas.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Breve Apontamento


Aqui mesmo ao lado, na barra direita deste blogue, já estão disponíveis algumas das páginas ilustradas dos «Pontos nos ii» referentes à grande Exposição Universal de Paris de 1889.

Informação complementar às crónicas publicadas semanalmente na "Gazeta das Caldas" que eu, diligenciada secretária de Rafael Bordalo Pinheiro faço chegar à redacção deste jornal. Crónicas essas directamente recepcionadas de Paris.

Uma pequena nota para a nova rubrica da "Gazeta das Caldas" intitulada “Navegando pelo Oeste”. Da responsabilidade da Joana Leite Silva dá-nos notícias do que por estas bandas se vai fazendo na blogosfera. E não podia ter começado de melhor forma: pelo blogue «Viajando pelo Oeste» do incansável andarilho que é o Luís Milheiro.

Felicidades e sucesso para a Joana.

domingo, 17 de maio de 2009

382ª. Página Caldense

Leiria no Tempo das Invasões Francesas
Jorge Estrela

“Os seis meses de ocupação francesa na região entre as linhas de Torres e Coimbra vitimaram quase todas as cidades, vilas e aldeias duma forma igualitária, ou seja, deixando por todo o lado o mesmo estigma de horror e destruição. Elegermos aqui umas e não outras não faz, portanto, muito sentido. As Caldas da Rainha porque, logo no início, ainda num período de relativa acalmia, surgiram os sintomas que se agravariam com o tempo. Muitos franceses estavam então em tratamento no hospital das Caldas e um desacato sem importância maior, envolvendo populares e soldados, foi empolado de modo a originar da parte do ocupante aquilo que se entendeu ser um castigo exemplar. Assim, foram presos dez indivíduos, por ordem do General Thomiers que, após um julgamento expedito, os condenou ao fuzilamento. Deste grupo salvou-se um cirurgião, de um regimento do Porto que estava nas Caldas, e os outros foram mortos em 9 de Fevereiro de 1808 na presença das autoridades portuguesas e de grande parte da população. De certo modo, foi o prenúncio da saga de terror que se iria seguir.” [Página 75]

[Leiria no Tempo das Invasões Francesas. Jorge Estrela. Gradiva Publicações. 1ª. Edição, Março de 2009. ISBN 978-989-616-303-7]

sábado, 16 de maio de 2009

Caldas da Rainha ou as Rainhas nas Caldas

A manhã nasceu soalheira e um pouco ventosa.

Elas chegaram em bando. Nervosas e impacientes por ocuparem os seus tronos, criando uma mancha de cor sobre o cinza da calçada.

Umas tantas mais sombrias, outras de design mais arrojado, todas elas conscientes da sua realeza e da sua importância na cidade.


Por aqui e por ali foram ocupando os lugares mais aprazíveis, resguardadas do ventinho frio que se fazia sentir.

Desde logo despertaram a atenção. Perguntava-se: - Quem são estas Rainhas que desceram à cidade?

Até a gata Florbela, curiosa como todas as gatas, veio espreitar tal desmesurada animação...

Que Rainhas são estas, misturadas com o povo, convivendo com quem passa, acenando com afabilidade, sorrindo com subtileza?

São as Rainhas nascidas de uma iniciativa de um grupo de alunos da Escola Raul Proença, com a participação das mais variadas entidades, escolas e não só, num verdadeiro congregar de vontades.

E as ruas alegraram-se com a passagem da realeza…

Por breves horas a cidade fez jus ao seu nome: Caldas da(s) Rainha(s).

Numa noite Tony Carreira, numa manhã as Rainhas reinando na cidade… Questiono-me: Caldas de Tony ou Caldas da Rainha?

Sempre da Rainha, mesmo que o seu trono não passe de uma caixa de electricidade de aspecto deplorável, situada numa das ruas do coração da cidade.

A Visitar


A Visitar


sexta-feira, 15 de maio de 2009

381ª. Página Caldense

[Hospital e Balneários Rainha D. Leonor. Caldas da Rainha]
[Postal edição de Fernando Daniel de Sousa]

15 de Maio


"Em 15 de Maio os principais empregados do hospital vão a casa do sr. administrador do mesmo, que com eles e mais amigos particulares se dirige à igreja onde fazem uma breve oração, e logo percorrem as enfermarias, no que, condescendente o chefe superior permite que assistam a esta cerimónia toda a pessoa decente. Nesta ocasião quão interessante seria o primeiro empregado do estabelecimento com o bastão ou tradicional bengala da Rainha D. Leonor! Mas esta jóia, como outras de prata que deixou no templo desapareceram pelo descuido ou muito cuidado dos antigos provedores e até de outros deste século. Contudo, ainda que não com tanta pompa como antigamente, é para ver certa dignidade que revela este acto da inauguração, pois na frontaria interior de cada uma das enfermarias costuma haver uma cadeira e uma mesa, que uma ou outra, ou as duas, conforme o gosto ou tempo dos empregados subalternos, por estes que se acham no seu ponto respectivo, estão adornadíssimos com bordados tapizados, isto é, de engenhosos desenhos e até fábulas, matizados com folhada e pétalas das mesmas flores e ervazinhas, tirando destas grande partido fazendo-as figurar tecidos de rico veludo. Nestes trabalhos costuma campear, por gratidão e carinho, o nome do digno Administrador. Este senhor oferece raminhos de fliores a vários assistentes a esta linda cerimónia, na qual, e recoridos todos os departamentos que respiram asseio imelhoravel, se declara inaugurada a benéfica e ansiada estação dos banhos neste Hospital. Em seguida na sala do Club há baile público, divertimento de que aproveita muita gente, e com mais distinção pela noite, que torna a repetir-se, e este é chamado «baile de casa». [...]
[Buvete termal (século XIX) e painel joanino (século XVIII) na "Casa da Copa"]
[Hospital Termal da Rainha D. Leonor]


O dia da abertura do Hospital é uma espécie de festividade de bastante folguedo e alegria para os demais habitantes da Vila por começar-se a colheita de lucros: que se bem com seu trabalho, lhes proporciona os banhistas, concorrentes, entre eles muitos espanhóis. Neste dia também está muito concorrida a Mata e o Passeio, onde se notam cada ano mais as melhores que a necessidade e o bom gosto sugerem ao digno actual administrador.".[...]

[in: Origem do Real Hospital e da Vila das Caldas da Rainha, por D. Luis Vermell y Busquts, 1878]

quinta-feira, 14 de maio de 2009

quarta-feira, 13 de maio de 2009