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quarta-feira, 20 de maio de 2009

Caso ou Não Caso? Eterno dilema ...

Casamento nas Caldas da Rainha
Joshua Benoliel

«Já cá tomara eu tar casada!»

Menino pequeno entre gente grande durante muitos anos, cedo me habituei a ouvir as histórias dos mais velhos. No tempo da «estrada de macadame» era assim: sem luz eléctrica, sem rádio, sem televisão, sem cinema, as histórias eram contadas de boca em boca à lareira ou nos trabalhos do campo, pelos mais antigos da família. No meu caso, ouvinte atento, lembro-me de diversas histórias, uma delas passada com um grupo de mulheres na Casa Grande – o outro nome da Quinta. A protagonista era uma rapariga nova, a mais nova do rancho que, tão iludida estava com a mudança próxima do seu estado civil, não se cansava de dizer: «Já cá tomara eu tar casada!» Quando as outras, todas casadas e mais velhas, lhe perguntaram porquê, ela respondeu: «A gente depois de casar já não anda os dias fora!». Ela não percebia a evidência de que todas no rancho da Quinta eram casadas. Olhava mas não via. A cegueira da paixão não deixava.

A minha avó Flauta contava uma história a propósito dos casamentos que metia um aprendiz de carpinteiro do meu avô Zé Penas e do seu amigo Zé Lourenço das Relvas. Ao princípio o rapaz andava triste porque no primeiro fim-de-semana trouxe a ceira com a ferramenta da Malasia para Santa Catarina mas com pedras; a ferramenta ficou na casa do dono da obra. Era uma brincadeira habitual que todos faziam a todos, uma espécie de baptismo. Mas aos poucos esqueceu a brincadeira dos mais velhos e começou a desabafar as coisas da sua vida com aqueles dois homens já feitos e com filhos da sua idade. Aquilo começava sempre da mesma maneira:

«Tio Zé Lourenço, tenho andado cá a pensar, não sei se me case, se não me case… O que é que vocemecê diz?» Respondia o Tio Zé Lourenço: «Atão casa-te!».

Pouco tempo depois ele dizia: «Tio Zé Penas e se vem aí um Inverno rigoroso, que nos obriga a perder dias e dias?» Respondia o meu avô: «Não te cases, atão!»

Voltava ele à carga: «Vocemecê diz bem mas o pior é que um homem solteiro é um maltês!» Saltava o Tio Zé Lourenço: «Atão casa-te!».

Mas o aprendiz não desistia: «E se a minha patroa for da raça de ter um rancho de cachopos?». Respondia o meu avô: «Não te cases atão!».

Nova pergunta do rapaz: «E quando a minha mãe fechar os olhos? Quem é que me cozinha umas batatas e me cose uns botões?». Respondia o Tio Zé Lourenço: «Atão casa-te!» Mas o rapaz estava imparável: «E se eu me casar com um estupor que se porte mal? Já viu, Tio Zé Penas, a figura que um homem faz?» E logo o meu avô: «Não te cases atão!». Nova pergunta do aprendiz: «E se eu ficar solteiro toda a vida e tiver uma doença? Chamo o doutor Bertolino mas quem é que me trata?» Dizia o Tio Zé Lourenço: «Atão casa-te!». Mas ainda não chegava, ele voltava à carga: «Você diz bem mas se for ela a adoecer? Chamo o doutor Bertolino mas tenho de perder tempo a tratá-la e deixo de ganhar a jorna. Já viu?». Respondia o meu avô: «Não te cases atão!»

Esta é uma história sem fim porque se pode sempre acrescentar uma pergunta. Quando passo na Malasia lembro-me logo do aprendiz e da bonomia do Tio Zé Lourenço das Relvas. Mais expansivo, o meu avô dizia: «Ah fado dum ladrão!». Tantos anos depois a minha única certeza relativa é a que escrevi num poema – «Todos dormimos sozinhos / mesmo em cama de casal».

O meu agradecmento ao José do Carmo Francisco pela partilha desta crónica saborosamente saloia, publicada na sua rubrica Estrada de Macadame na Gazeta das Caldas.

4 comentários:

Luis Eme disse...

é uma crónica deliciosa, sobre um dos muitos dilemas da vida que enfrentamos...

o que é facto é que as pessoas casam cada vez menos...

Isabel X disse...

As pessoas casam mesmo não casando. E o que vale é que se garantem, divorciando-se e voltando a casar tantas vezes quantas forem as necessárias.
Casam, sem dúvida que casam! Ou o casamento entre pessoas do mesmo sexo não seria um tema fracturante e actual como todos sabemos que é.
- Isabel X -

Anónimo disse...

É caso para dizer «Não te cases atão!» JCF

Anónimo disse...

Se é entre pessoas do mesmo sexo não é casamento, é outra coisa qualquer. Podem chamar-lhe tudo menos casamento. Safa!
a)JCF