Partilhando leituras

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segunda-feira, 25 de maio de 2009

Bordalo Graffitado

“O amor surge naquela existência como uma claridade súbita que vai iluminar tudo. Matricula-se na Academia de Belas Artes, matricula-se no Curso Superior de Letras. Estuda? Não sei. Em todo o caso faz caricaturas à ponta de charuto nas paredes desses mesmos estabelecimentos do Estado, e, os que as vêem, param, riem, vão chamar outros para rirem juntos, vão depois a ele para o abraçar…
- Magnífico!
- Tu é que fizeste isto?
- Está bem bom!
- Faze lá este, faze lá aquele… Soberbo!

- És artista!...
E, como o coro antigo, ele principia a ouvir de todos os lados.
- Tens talento!...
Ah! Grande consolação dos que quase sempre são fadados para não terem nenhuma outra! Dessa mesma se desconfiará mais tarde: mas aos vinte anos, que doçura, que calor, que luz, que bem suavíssimo e balsâmico, que incitamento, que coragem dada nessas palavras:
- Tens talento!”

Prefácio de Júlio César Machado, in: Álbum de Caricaturas Frases e Anexins da Língua Portuguesa de Rafael Bordalo Pinheiro, 1876


Ao entardecer, uma grande tela de um branco baço, apoiada num candieiro da rua deserta, suscita a curiosidade.

Para que servirá? E quando a esta superfície se juntam mais três, também brancas e de consideráveis dimensões, agudiza-se a curiosidade.
São dez da noite e contrastando com o negro do céu e o cinza do empedrado da rua estas extensões sem cor provocam a imaginação dos ainda raros passeantes.

Nada de misterioso se passa. Vai dar-se início a uma perfomance integrada na já tradicional Caldas Late Nigth levada a cabo pelos alunos da Escola Superior de Arte e Design, que todos os anos, por três dias do mês de Maio, descem à cidade e a transformam com as suas intervenções artísticas.

O passeante depara com as mais variadas perfomances. Algumas, talvez a maior parte desinteressantes q.b., e um punhado delas de assinalável qualidade artística.

Mas deixemos a crítica para os críticos e voltemos à noite da última sexta feira.


Na Rua Heróis da Grande Guerra em frente à Livraria, Rafael Bordalo Pinheiro regressa às Caldas da Rainha.

Regressa, recriado por um processo de intervenção artística, tida como contemporânea, mas tão antiga como a criatividade humana: o graffiti.

Nos placares começam a surgir os primeiros contornos em cores fortes de acordo com a personalidade do artista inspirador do tema.

Trabalho de minúcia, delicadamente contornado a mão certeira.

E ao longo das horas que se seguiram a obra ganhou forma, completada em quatro painéis, feitos de imaginação cor e talento.


Os noctívagos paravam, comentavam, tiravam fotografias.

Uns tantos, mais distraídos comentavam: aquele bigode é do Eça; outros, com mais sentido poético, auguravam: - Fernando Pessoa? Na pressa da passagem nem liam o nome desenhado a cores de fogo: Bordalo Pinheiro.


Na rua das Montras umas tantas caixas com a sinalética da Fábrica Bordalo Pinheiro convidavam o passeante à construção de puzzles interactivos. Play Box estabelecia uma surpreendente interacção com os que vadiavam pela arte.

Pelas três da manhã a obra foi dada por concluída. Diga-se em abono da verdade, que com muito custo; porque aos verdadeiros artistas falta sempre um último toque!
Apagam-se as luzes. Fecho a porta da Livraria no desejo sincero de a tornar a abrir sempre que for necessário dar apoio às intervenções de rua que dão vida à cidade.
Os meus parabéns e agradecimentos ao Nicola, ao Filipe e ao André por me terem dado a oportunidade de participar nesta acção evocativa do grande criativo que foi Mestre Rafael Bordalo Pinheiro.
Noto agora que num dos painéis, Bordalo Pinheiro de fidalguesta figura interroga-se: Modernices? Enquanto isso um Zé de mãos nuns bolsos (vazios ?) olha de revés para um dos ícones da modernidade (?) caldense.





Na manhã de sábado a cidade surge enublada e triste. Com uma excepção: a minha rua, onde Rafael Bordalo Pinheiro grafiteiro, se tinha feito grafitar.


E os artistas? Quem são eles?

Caldas Late Night
22 de Maio de 2009, Rua Heróis da Grande Guerra

3 comentários:

CriS disse...

Um dos artistas sou eu..CriS

Obrigado pelo blog ;)

Luis Eme disse...

gostei bastante de passar de manhã pela tua rua, no sábado, Isabel...

claro que a chuva depois apareceu, mas valeu a arte de uma ponta a outra da rua das montras, enquanto deu...

João Ramos Franco disse...

A realidade cultural da Cidade onde nasci, vejo-a cada momento que passeio pelos blogues, Sinto-a em mim, hoje em liberdade expressão, o que não se passava no meu tempo…
Talvez seja realidade e não cumplicidade o comentário que dei no Blogue 100SentidoComSentido…
João Ramos Franco