CAVACOS DAS CALDAS II

DICIONÁRIO GRÁFICO BORDALIANO

alguns livros, cerâmicas, belos gatos e algo mais...



quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

207.ª Página Caldense

OS GATOS
FIALHO DE ALMEIDA


"27 de Setembro


Pequena romaria à fábrica de faianças de Bordalo, nas caldas da rainha, para de perto estudar a gestação laboriosa dum génio isolado, e a indiferença soez dum público cretino. A fábrica suspendeu por falta de dinheiro: quando já estava cheio e acogulado de louça um forno Minton, subitamente o cofre estanca-se e os accionistas debandam, deixando Rafael Bordalo entre um pessoal d'aprendizes e oficiais que lhe pediam pão.

Não trouxe das Caldas notas para dizer da fábrica e da louçaria artística ou trivial que ela labora, e porque semelhante trabalho seja impossível d'esmiuçar à simples reminiscência, reservá-lo-ei para quando, melhor ensinado, valha a pena informar o leitor com probidade. O que por agora me traz das Caldas às páginas ásperas e reputadamente hostis deste panfleto, é o desejo de fixar uma expressão do génio de Bordalo, que me parece ainda pouco conhecida, e de fazer a exacta reportagem duma das obras mais estranhamente originais que há muito tempo vêem luz na escultura do país. A coisa irá desta vez escorreita e sem arrebicados, à uma porque o estilo caseiro põe o escritor desiludido ao nível da bestialidade do seu tempo, à outra porque eu, a respeito de primores de forma, sabendo já que público arremangado tenho à perna, decido alfim não deitar pérolas a porcos.

A cerâmica de Bordalo abrange artefactos de louça caseira ou decorativa, azulejos, telha de cores, etc., constituindo a produção usual da fábrica, e obras d'escultura que são, na desabrochante curva da vida artística do meu amigo, a terceira grande frase monumental do seu talento." [...] [Páginas 123 a 144]

[Os Gatos. 6.º Volume. Fialho d'Almeida. Clássica Editora. Edição de Setembro de 1992. tiragem: 2000 exemplares. ISBN 972-561-210-8]

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