Cavacos das Caldas
CAVACOS DAS CALDAS II

DICIONÁRIO GRÁFICO BORDALIANO

alguns livros, cerâmicas, belos gatos e algo mais...



terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

352.ª Página Caldense

O ANTÓNIO MARIA, 26 DE MARÇO DE 1892
RAFAEL BORDALO PINHEIRO


[ - Até que emfim vamos ser considerados gente! ... gritam os gatos, em coro, sabendo da contribuição que sobre suas cabeças vae pesar.
Sentidas condolencias ao nosso amigo Fialho d'Almeida pelo enorme imposto que terá de pagar.]


"Meus Senhores, aqui estão os gatos!

Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, e fez o crítico à semelhança do gato.

Ao crítico deu ele, como ao gato, a graça ondulosa e o assopro, o ronrom e a garra, a língua espinhosa e a câlinerie. Fê-lo nervoso e ágil, reflectido e preguiçoso; artista até ao requinte, sarcasta até à tortura, e para os amigos bom rapaz, desconfiado para os indiferentes, e terrível com agressores e adversários. Um pouco lambeiro talvez perante as coisas belas, e um quase nada céptico perante as coisas consagradas; achando a quase todos os deuses pés de barro, ventre de jibóia a quase todos os homens, e a quase todos os tribunais, portas travessas. Amigo de fazer jongleries com a primeira bola de papel que alguém lhe atire, ou seja um poema, ou seja um tratado, ou seja um código. Paciente em aguardar, manso e pagado, com um ar de mistério, horas e horas, a surtida de um rato pelos interstícios de um tapume, e pelando-se, uma vez caçada a presa, por fazer da agonia dela uma distracção; ora enrolando-a como um cigarro, entre as patinhas de veludo; ora fingindo que lhe concede a liberdade, atirando-a ao ar, recebendo-a entre os dentes, roçando-se por ela e moendo-a, até a deixar num picado ou num frangalho.

Desde que o nosso tempo englobou os homens em três categorias de brutos, o burro, o cão e o gato - isto é, o animal de trabalho, o animal de ataque, e o animal de humor e fantasia - porque não escolheremos nós o travesti do último? É o que se quadra mais no nosso tipo, e aquele que melhor nos livrará da escravidão do asno, e das dentadas famintas do cachorro.

Razão porque nos acharás aqui, leitor, miando pouco, arranhando sempre, e não temendo nunca.”

Fialho d'Almeida
Os Gatos [Prefácio]

[Entre 1889 e 1894, Fialho de Almeida escreve "Os Gatos, Publicação Mensal d'Inquérito à Vida Portuguesa", um conjunto de crónicas jornalísticas. São várias as referencias a este escritor na obra gráfica de Bordalo. É bem conhecida a jarra Fialho de Almeida, oferecida pelo artista ao seu amigo escritor.]

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