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terça-feira, 10 de novembro de 2009

Café Literário - Praça da Fruta 2


Praça da Fruta de Carlos Querido

Dia 15 de Novembro (Domingo)
16 Horas
Salir de Matos
Antiga Adega do Mosteiro de Alcobaça
Rua de Santo António, n.º 20

«Praça da Fruta» de Carlos Querido

"Para muitos de nós, caldenses de nascimento ou de adopção por vivências escolares, pessoais e militares, a Praça da Fruta é um lugar mágico de onde todos trouxemos algum pó público nos sapatos particulares. Os meninos do meu tempo de menino tinham (os que podiam) um fato dos Armazéns do Chiado no dia do exame da quarta classe.

O ponto de partida para esta ficção narrativa é o próprio lugar: «A névoa das manhãs do Oeste dissipa-se sempre devagar. É então que surge um momento de luz perfeita, quando céu já é azul e o chão ainda reflecte o orvalho da noite. Nesse instante único, em que a limpidez do olhar chega a tornar-se insuportável, surpreendo-me a observar as imperfeições da calçada. Marcas do tempo, cicatrizes, rugas, sinais de envelhecimento que nos passam despercebidos por os vermos todos os dias».

É neste espaço mágico que se articulam duas histórias paralelas: a do Narrador com Marília e a da viúva do Casal da Areia que mandou matar o marido muito mais velho do que ela. Do primeiro caso temos a história e o enredo; do segundo apenas a memória. Em ambos a diferença de idades é flagrante. Mas não só: os sonhos também são opostos. O Narrador é um empregado de uma Repartição; Marília é professora. Um apenas regista; outra semeia. Um gosta dos papéis do passado, outra ouve a música do futuro. Conheceram-se na Praça da Fruta quando Marília vendia pêssegos para ajudar a família. Juntou-se o peso da Cultura com a força da Natureza. Um dos momentos mais conseguidos da narrativa é a chegada do Narrador à casa da família de Marília num dia de matança do porco. Leva na mão um ramo de flores que não consegue entregar à mãe do seu amor porque a mesma se encontra integrada nas tarefas inadiáveis de não deixar coalhar o sangue do animal pendurado no tecto. E é o avô de Marília que o integra no espaço e no tempo com uma espécie de radiografia antropológica do que era viver na nossa terra nos anos 40 e 50 do século XX.

Surge neste livro a eterna disfunção entre Natureza e Cultura, entre o rodar maquinal e certeiro das sementeiras e das colheitas (Marília) e o fascínio dos velhos alfarrábios, jornais, livros, cartazes, actas camarárias e postais antigos (Narrador). Mesmo com livros comprados na livraria «107» e lanches na pastelaria Machado, a ligação entre Narrador e Marília começa a perder-se. Falta de comunicação num tempo em que há comunicação em excesso. Tal como a viúva Marreiros, Marília procura algo mais. A primeira teve um criado espanhol, a segunda tem a Internet. Diria um leitor cínico: «Se tivessem um bebé já nada disto acontecia!». Mas se assim fosse já era outra história. Não era esta história que começa na vida de um lugar e atravessa a vida da vila que foi da cidade que hoje é e do país do qual faz parte. E nos envolve a todos, porque todos os que lá estiveram e passaram nunca mais deixam de lá estar e viver. Lá ficaram mesmo quando não parece. E cabem todos nas 160 páginas deste livro. Um livro a não perder, sem falta."

José do Carmo Francisco

[Os meus agradecimentos ao José do Carmo Francisco pela partilha desta sua crónica publicada na Gazeta das Caldas.]

1 comentário:

Luis Eme disse...

não tenho qualquer hipótese de aparecer, mas fico muito feliz por assistir a esta agitação literária nas Caldas (o livro de Mário Tavares e este romance, e por este 2º lançamento ser em Salir de Matos...