Cavacos das Caldas
CAVACOS DAS CALDAS II

DICIONÁRIO GRÁFICO BORDALIANO

alguns livros, cerâmicas, belos gatos e algo mais...



segunda-feira, 1 de junho de 2009

386ª. Página Caldense



Rafael Bordalo Pinheiro e os seus gatos


Artigo: Amigo dos Poetas e da Maria Rita

[…]“Era crime capital matar um gato nos tempos grego romanos do Egipto. A gata, mãe dos gatos, era adorada pelo pequeno povo de Tebas. Gata era a deusa de Bubastis. Gata tem sido muito gente boa. Fez o elogio dos gatos Champfleury num livro imorredoiro. Richelieu era mais doido por gatos que a Maria Rita, de quem aqui falámos, e de quem toda a gente ainda hoje fala quando se fala de gatos. Numerosos são os casos em que o gato, amigo do silêncio e da meditação, se tornou o companheiro predilecto de artistas e poetas. Taine, o poeta da prós, um dia em que quis experimentar o verso, glorificou o gato num soneto que saiu óptimo. Hugo Banville, Gautier, Baudelaire, sempre quiseram ver gatos ao redor de si. Oito chegou a ter François Coppée. A história das duas gatas de Pierre Loti, contada por ele, é uma das suas mais enternecidas páginas. Célebres ficaram os gatos pintados por Paulo de Vos, por Hamilton e por Teniers, como já célebres são hoje os gatos desenhados por Stenlei e os esculpidos por Carabin.

Mas todos esses são ou são gatos criados, engordados e penteados, para a galeria e para a história, muito bonitos, muito seleccionados, muito apurados.

Ao passo que os nossos, não. Os nossos são o que são. Ainda mesmo aqueles que foram de criação de artistas e poetas, como esses que deram a Fialho, o tipo dos Gatos, a Eça o Dom Bonifácio dos Maias, a Rafael Bordalo todos os que percorrem, de rabo no ar e o espinhaço em arco, como gatos espavoridos de um sabbat, as páginas do António Maria; e aqueles que são familiares de outras musas, como a Colombina de João Penha, e esse regalado e pançudo D. Beltrão de Figueirôa, que se não farta de dormir, a bom dormir, acocorado sobre a mesa em que Júlio Dantas trabalha – ainda mesmo esses são gatos que se contentam com as festas do dono e não olham a celebridade. Tanto lhe faz trazer laço de seda cor-de-rosa e guiso ao pescoço, como não. Façam-lhe versos, sirvam-se deles para modelo de obras de arte, tanto se lhes dá. O que eles querem é festa, muita bichinha gata, o tacho da paparoca sempre bem cheio, liberdadezinha em Janeiro, boa soalheira em toda a volta doa ano. E também gosta muito que o tratem por bichano.[…]

Alfredo Mesquita

[Ilustração Portuguesa, 1.º semestre de 1907. Nota: O volume que me foi dado consultar não conserva as capas desta publicação, daí a dificuldade numa mais concreta identificação da data deste artigo.]

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