CAVACOS DAS CALDAS II

DICIONÁRIO GRÁFICO BORDALIANO

alguns livros, cerâmicas, belos gatos e algo mais...



quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Eça, sempre Eça

Hoje à tarde dediquei-me aos papéis. Enquanto punha para aqui umas facturas e uns recibos para acolá , fui ouvindo a Antena 1, que transmitiu em directo o debate da Assembleia da República, entre o 1.º Ministro e os representantes dos vários grupos parlamentares.
E não sei porquê, Eça de Queiroz veio-me à ideia...


Folheei as "Farpas" e lá encontrei o texto intitulado "O que era o partido reformista", que passo a transcrever:

"Ninguém se aproximava dele, no meio da imensa impressão que causava nos moços de fretes. Por fim, pouco a pouco, alguns jornalistas mais curiosos foram-se chegando, começaram a tocar-lhe com o dedo, a ver se era de pau. Era de carne, verdadeiro. Percebeu-se mesmo que falava. Então os mais audaciosos fizeram-lhe perguntas.

– Senhor – disseram – espalhou-se por aí que vindes restaurar o País. Ora deveis saber que um partido que traz uma missão de reconstituição deve ter um sistema, um princípio que domine toda a vida social, uma ideia sobre moral, sobre educação, sobre trabalho, etc. Assim, por exemplo, a questão religiosa é complicada. Qual é o vosso princípio nesta questão?

– Economias! – disse com voz potente o partido reformista.

Espanto geral.

– Bem! e em moral?

– Economias! – bradou.

– Viva! e em educação?

– Economias! – roncou.

– Safa! e nas questões de trabalho?

– Economias! – mugiu.

– Apre! e em questões de jurisprudência?

– Economias! – rugiu.

– Santo Deus! e em questões de literatura, de arte?

– Economias! – uivou.

Havia em torno um terror. Aquilo não dizia mais nada. Fizeram-se novas experiências. Perguntaram-lhe:

– Que horas são?

– Economias! – rouquejou.

Todo o mundo tinha os cabelos em pé. Fez-se uma nova tentativa, mais doce.

– De quem gosta mais, do papá, ou da mamã?

– Economias! – bravejou.

Um suor frio humedecia as camisas. Interrogaram-no então sobre a tabuada, sobre a questão do Oriente...

– Economias! – gania.

Foi necessário reconhecer, com mágoa, que o partido reformista não tinha ideias.

Possuía apenas uma palavra, aquela palavra que repetia sempre, a todo o propósito, sem a compreender. O partido reformista é o papagaio do Constitucionalismo.

O partido reformista apareceu um dia, de repente, sem se saber como, sem se saber por que. Era um estafermo austero, pesado, de voz possante. Ninguém sabia bem o que aquilo queria. Alguns diziam que era o sebastianismo sob o seu aspecto constitucional; outros que era uma seita religiosa para a criação do bicho-da-seda.

Corriam as mais desvairadas opiniões. Apresentava-se tão grave, tão triste, tão intransigente, que no Chiado afirmava-se ser um personagem da história romana – empalhado!"

Eça de Queiroz, Maio de 1871, As Farpas

Fiquei preocupada... Porque diabo me fui eu lembrar do Eça, ao ouvir o debate na Assembleia?. Vou dormir sobre o assunto...

PS: Eça de Queiroz desenhado por João Abel Manta

5 comentários:

Isabel X disse...

Espero que durmas bem e que amanhã já tenhas esclarecido essa questão: Realmente, porque seria?
Qualquer sememlhança é pura coincidência...
- Isabel Xavier

o das caldas disse...

Também faço votos para que durmas bem.
2 beijinhos

Margarida Araújo disse...

Quanta actualidade! Arrepia.

Luis Eme disse...

não foi, porque sim, Isabel...

andam por aí muitas imitações e outras tantas falsificações.

ana disse...

Atenção: As Farpas é de Ramalho Ortigão e não Eça de Queirós.