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quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

De novo, Eça

Há anos de grande actividade política; por princípio, todos eles o são. Mas uns, são mais do que outros (ter Orwell à mão é sempre uma mais valia…).

E o presente ano promete: eleições para a Parlamento Europeu, eleições para a Assembleia da República e eleições Autárquicas.

Certamente que a esta hora já existem muitos putativos candidatos, preocupados com sua preparação física, mental e cultural para se posicionarem favoravelmente nos lugares de partida, e de preferência nos de chegada.

Consciente da minha responsabilidade social, imbuída de grande sentido de cidadania, quero contribuir positivamente para essa aprendizagem.

Convidei para me acompanhar nesta árdua e mui responsável tarefa, Eça de Queiroz.

Fruto da argúcia, inteligência e sentido crítico da pena queiroziana, emocionada e persuadida da sua utilidade pública, passo a transcrever:

[capa de "As Farpas", de Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão, editado em 1871, ilustração de Manuel Macedo ]

“Junho 1871

Há muitos anos a política em Portugal apresenta este singular estado:

Doze ou quinze homens, sempre os mesmos, alternadamente, possuem o poder, perdem o poder, reconquistam o poder, trocam o poder… O poder não sai de uns certos grupos, como uma péla que quatro crianças, aos quatro cantos de uma sala, atiram umas às outras, pelo ar, numa explosão de risadas.

Quando quatro ou cinco daqueles homens estão no poder, esses homens são, segundo a opinião, e os dizeres de todos os que lá não estão - os corruptos, os esbanjadores da fazenda, a ruína do país, e outras injúrias pequenas, mais particularmente dirigidas aos seus carácteres e às suas famílias.

Os outros , os que não estão no poder são, segundo a sua própria opinião e os seus jornais - os verdadeiros liberais, os salvadores da causa pública, os amigos do povo, e os interesses do país e da pátria.

Mas, cousa notável!

Os cinco que estão no poder fazem tudo o que podem – intrigam, trabalham para continuar a ser os esbanjadores da fazenda e a ruína do país, durante o maior tempo possível! E os que não estão no poder movem-se, conspiram, cansam-se, para deixar de se- o mais depressa que puderem - os verdadeiros liberais, e os interesses do País!

Até que enfim caem os cinco do poder, e os outros - os verdadeiros liberais - entram triunfalmente na designação herdada de esbanjadores da fazenda e ruína do país; e os que caíram do poder, resignam-se, cheios de fel e de tédio - a vir a ser os verdadeiros liberais e os interesses do País.

Ora como todos os ministros são tirados deste grupo de doze ou quinze indivíduos, não há nenhum deles que não tenha sido por seu torno esbanjador da fazenda e ruína do País….

Não hã nenhum que não tenha sido demitido ou obrigado a pedir a demissão pelas acusações mais graves e pelas votações mais hostis…

Não há nenhum que não tenha sido incapaz de dirigir as coisa públicas - pela imprensa, pela palavra dos oradores, pela pela acusação da opinião, pela afirmativa constitucional do poder moderador…

E todavia serão estes doze ou quinze indivíduos os que continuarão dirigindo o país neste caminho em que ele vai, feliz, coberto de luz, abundante, rico, forte, coroado de rosas, e num choito* tão triunfante!

Ora dá-se na política um caso singular:

Um homem é tanto mais célebre, tanto mais consagrado, quantas mais vezes tem sido ministro - isto é, quantas vezes mais vezes tem sido incompantível com a felicidade do país, quanto mais vezes tem montrado a sua incapacidade nos negócios!

Assim o Sr. Carlos Bento foi uma primeira vez ministro da fazenda; teve a sua demissão, e não foi naturalmente pelos serviços que estava fazendo à sua pátria, pelo engrandecimento que estava dando à ceita pública, etc… se caiu foi porque naturalmente a opinião, a imprensa, os partidos coligados, o poder moderador, etc, o julgaram menos conveniente para administrar a riqueza nacional.

Por isto foi ministro da fazenda uma segunda vez: caiu; mostrou de novo a sua incompatibildade, ou a sua inapacidade – pelo menos assim o julgou por essa ocasião, o poder moderador. E a importância do Sr. Carlos Bento cresceu!

Por consequência foi terceira vez ministro: caiu; devemos portanto ainda supor que naturalmente deu provas de não ser competente para estar na direcção dos negócios. E a sua importância aumentou, prodigiosamente.

É novamente ministro: se tiver a fortuna de ser derrubado do poder, se tiver a extrema felicidade de ser convencido, pela opinião, duma incapacidade absoluta, será elevado a um título, dar-se-lhe-ão embaixadas, entrará permanentemente no Almanaque de Gota.

[Eça de Queiroz - Página de "O Besouro", de 4 de Maio de 1878, da autoria de Rafael Bordalo Pinheiro]


E o quem não conseguiu sendo espirituoso e fino, alcancá-lo-à logo que o poder moderador , demitindo-o, tenha provado que ele é incapaz.

Honrada política! Tu és santa, bela, pura, imaculada, coberta de coisas!

Ora tudo isto nos faz pensar que:

Quanto mais um homem prova a sua incapacidade, tanto mais apto se torna para governar o seu país!

O que fará proceder o chefe do estado da seguinte maneira seguinte na apreciação dos homens:

O menino Eleutério fica reprovado no seu exame de francês. O poder moderador deita-lhe logo o olho.

O menino Eleutério, continuando a sua bela carreira política, fica reprovado no seu exame de história. O poder moderador, alvoraçado, acena-lhe com um lenço branco.

O caloiro Eleutério, fica reprovado no 1.º ano da faculdade de direito. O poder moderador exulta e quer a todo o transe ter com com ele umas falas.

O sr. Eleutério fica reprovado no 5.º ano. O poder moderador não pode conter o júbilo e fá-lo ministro da justiça.

E a opinião aplaude.

De modo que, se um homem pudesse apresentar-se ao chefe do estado com os seguintes documentos:

Espírito de total modo bronco que nunca pôde aprender a somar;

Estupidez tão espessa que nunca pôde distinguir as letras do A B C ;

Reprovações sucessivas em todas as matérias de todos os cursos.

O chefe do Estado tomá-lo-ia pela mão, e dir-lhe-ia, sufocado em júbilo :

- Tu Marcellus eris! Tu serás, para todo o sempre, presidente do conselho!"

Eça de Queiroz

[Eça de Queiroz n' O António Maria, de 15 de julho de 1880, da autoria de Rafael Bordalo Pinheiro]

[Nota: texto transcrito de As Farpas.Crónica mensal da política, das letras e dos costumes. Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão. Coordenação geral e introdução Maria Filomena Mónica. Principia, 1.ª Edição, 2004]

PS: Comento-me a mim mesma: saboriei cada palavra deste texto de Eça. A ironia em política é uma arma fatal ...

1 comentário:

João Norte disse...

Parece que os tempos não mudaram muito!...