Partilhando leituras

Livros sobre Caldas da Rainha, Rainha D. Leonor, Bordalo Pinheiro, caricaturas,

cerâmicas, gatos e algo mais...

quarta-feira, 1 de abril de 2009

A Mulher de Vestido Vermelho


Uma figura feminina longilínea ocupa o centro da cena; as pregas do seu vestido vermelho estampado a branco caem elegantemente escondendo um corpo que se prevê magro e ossudo.

Um cacho de uvas pretas de aspecto carnudo suporta o peso de um Zé-Povinho deitado de bruços, apoiando a cara nas mãos abertas em forma de concha. Olhos fechados, numa atitude de indiferença, como que meio adormecido, ausente do que se possa em seu redor.

Algumas parras sob as uvas rasgam o chão, acentuando os seus contornos aguçados.

Junto à cabeça do Zé erguendo uns finos braços ao alcance do seu chapéu, uma figura esquelética de criança. Logo atrás, um colo feminino embala outro corpo infantil. Dominando a cena, em pano de fundo, uma figura feminina de formas que se adivinham voluptuosas, envolta num manto cor térrea, ajeita ternamente o cabelo loiro da mulher vestida de vermelho.

Na parte superior da composição artística, um casal de sombrios corvos, empoleirados num ramo fino que se estende de um tronco seco que se ergue na zona limite direita.

Em traços ténues e finos, à esquerda, alheios à dramatização figurada, alguns pares dançam enleados ao som de uma música imaginada.

Esta página, publicada a 26 de Janeiro de 1901, nas páginas centrais de A Paródia, é da autoria de Rafael Bordalo Pinheiro. Tem por título: “A Actualidade – Fantasia”. Se mais não tivesse publicado, bastava a arte desta página para inscrever o nome do seu autor nos anais da nossa cultura. Um trabalho com um traço de vincada influência arte nova, surpreende-nos pelo contraste entre a sua harmonia estética e a dureza da mensagem que transmite.

É a critica social, em que o riso se transforma num esgar trágico.

Uma última nota: as cores. Neutras, castanhos de vários tons, beijes, cinzas e depois rasgando à vertical a página, um vermelho luminoso, cor de sangue.

Falta, por fim, identificar a legenda: “A Indiferença Mascara a Miséria”.

Esta composição podia ter sido assinada ontem ou hoje. É de uma actualidade impressionante. Sedutoramente a miséria mascarada, face a uma indiferença dolorosa de um espectador ausente. Não estamos nós hoje a viver num mundo de fantasia, que nada tem de real e em que a miséria é ocultada?


É esta a minha homenagem a Rafael Bordalo Pinheiro, passados que são 136 anos do seu nascimento.

O Mestre nasceu no dia 21 de Março de 1846, na Rua da Fé, em Lisboa. Comemoram-se nesta mesma data, os dias Mundial da Poesia e da Árvore; quanto a efemérides, Rafael está em boa companhia.
[Publicado na Gazeta das Caldas de 28 de Março de 2009]

Sem comentários: