CAVACOS DAS CALDAS II

DICIONÁRIO GRÁFICO BORDALIANO

alguns livros, cerâmicas, belos gatos e algo mais...



quinta-feira, 9 de abril de 2009

3.º Encontro de Escritores de Torres Vedras


Tive a honra e o prazer de ser convidada a participar no 3.º Encontro de Escritores de Torres Vedras. Eis a minha intervenção:

"Muito boa tarde.

Quero desde já expressar a minha alegria por me encontrar entre vós, partilhando esta mútua e confessada paixão pelos livros.

Desejo igualmente felicitar a organização desde 3.º Encontro de Escritores em Torres Vedras, e agradecer o seu amável convite.

Antes de prosseguir, permitam-me que me apresente: chamo-me Isabel Castanheira e sou livreira nas Caldas da Rainha, profissão que exerço desde os tempos em que os livros eram identificados pelos seus títulos e autores, bem longe da actual prática que os considera meros produtos, transaccionáveis como quaisquer outros.

Calculem pois, há quanto tempo comecei!...

Quando, há cerca de um mês atrás, recebi este desafio – participar no debate da mesa, a que coube tratar o tema:

«A Literatura Improvável – A Promoção da leitura fora dos Grandes Centros»

- e acedi ao convite, foi, acreditem, com uma grande dose de inconsciência, que o fiz.

Impõe-se abrir aqui um pequeno parêntesis: o tema inicial foi, entretanto, parcialmente alterado pela organização.

Dado o facto de, à data, já ter a minha intervenção escrita e não ter tido, entretanto, a oportunidade de a refazer, é ao tema inicial que obedece a minha apresentação.

Reli, pois, o tema proposto e pus a mim própria esta simples questão: o que poderia significar «Literatura Improvável»?

Um pouco perplexa, consultei um dos mais vulgares dicionários, e fiquei a saber que literatura é simplesmente um conjunto de «Escritos narrativos, históricos, críticos, de eloquência, de fantasia, de poesia, etc.…»

E que improvável, será «…o que não oferece probabilidade de se realizar».

Partindo destas premissas, pus a mim própria uma nova questão:

- Dar-se-ia o caso de, fora das grandes urbes, talvez sob a influência de um ambiente menos stressante, ou por via, quem sabe, da existência de uma atmosfera impregnada de pólens dos plátanos, ou ainda, porventura, sob o sortilégio de uma certa ruralidade histórica, poder a literatura transfigurar-se?

O que até então era provável, tornar-se improvável? Seria tudo uma questão de microclima, de latitude, de longitude…?

Consideremos então esta hipótese…

- Seria provável que Deolinda, o grande amor do Dr. Sidónio Rosa, personagem de Mia Couto, trocasse de páginas com a Laurentina de Agualusa?

- Seria provável Romeu apaixonar-se por Isolda, deixando a Tristão o campo livre para cair nos braços de Julieta?

- Seria provável a Maigret – sem disso informar Simenon – viajar para a enevoada Londres, na pista de Sherlock Holmes?

- Seria provável encontrar Sal Paradise, o aventureiro de Kerouac, a remar a remar, enquanto o velho marinheiro, do velho Steinbeck, feito motoqueiro, percorria o grande continente americano?

- Seria provável à camiliana Teresa de Albuquerque deixar Coimbra, obrigando a queiroziana Maria Eduarda à troca?

Ainda sem certezas plenas, continuei a pôr-me questões:

- Seria provável encontrar o Capitão Haddock a defender a inexpugnável aldeia gaulesa, enquanto Obélix, na companhia de Astérix e Ideafix, se propunha conquistar o Tibete?

-Seria provável encontrar Corto Maltese a passear pelo casco velho de uma sedutora Barcelona, enquanto David Martin desvendava os segredos de Veneza?

Uma última dúvida:

- Seria provável encontrar o gato Zorbas na floresta de Jorge Amado ao mesmo tempo que o Sapo Cururu – que nas horas vagas se dedica à crítica literária – vagabundeia pela Hamburgo de Sepúlveda?

- E longe de mim, muito longe de mim mesmo, equacionar a probabilidade de o príncipe encantado casar com o Chapelinho Vermelho ou a Branca de Neve ser comida pelo Lobo Mau.

E cheguei à conclusão que as minhas questões, que eu considerava muito prováveis, eram simples e totalmente improváveis.

Retomando o fio à meada, claro está que o conteúdo de um livro é sempre o mesmo, independentemente do local onde se encontrar.
Em Nova Iorque, em Londres, em Lisboa, nas Caldas ou em Torres, o Auto da Barca do Inferno será sempre o mesmo; a diferença residirá no facto de Gil Vicente nada significar para os nova-iorquinos ou para os Londrinos enquanto que, para parte da população escolar de Lisboa, Caldas ou Torres, é leitura recomendada.

Simplificando, a Literatura não é, nem mais nem menos do que livros e mais livros, editados a uma média – dizem – de 40 títulos novos por dia.

Pergunto então:

- A quem compete promover a literatura, no sentido mais lato do termo?

Numa primeira análise, compete aos organismos públicos que têm – ou de quem se diz que têm – essa função, sejam eles o Ministério da Cultura, o Ministério da Educação, a Direcção Geral das Bibliotecas, o Instituto Camões, ou o Plano Nacional de Leitura.

Quanto a mim, confesso-vos a, digamos assim, minha bipolarização: se, por um lado, sou uma amante dos livros, totalmente livre na sua escolha, por outro lado, como livreira, estou condicionada pelo objectivo final, que é a sua venda.

Por outro lado, como cidadã interessada pelo saber, compete-me também a divulgação dessa mesma cultura escrita. E posso fazê-lo em Grupos de Leitores, assistindo a conferências ou colóquios de divulgação literária, participando de encontros como este, ou simplesmente numa troca de impressões com um amigo, sobre o último livro lido.

Na minha qualidade de livreira – compete-me saber vender livros; e não fazer diferenciação entre «Boa» e «Má» literatura.

A opção pela escolha e eventual compra é do Cliente/Leitor, a quem eu tenho que disponibilizar uma oferta diversificada.

Chamemos, neste ponto, em nossa defesa, um dos nomes tidos por intangíveis: Fernando Pessoa, que na revista de «Comércio e Contabilidade», n.º 1, de Janeiro de 1924, escreveu:

«Um comerciante, qualquer que seja, não é mais do que um servidor do público; e recebe uma paga a que chama o seu «lucro», pela prestação desse serviço. Ora toda a gente que serve deve, parece-nos, buscar agradar a quem serve – mas estudá-lo sem preconceitos nem antecipações; partindo, não do princípio de que os outros pensam como nós – mas do princípio que, se queremos servir os outros (para lucrar com isso ou não) nós é que devemos pensar como eles: o que temos que ver é como eles efectivamente pensam, e não como é que nos seria agradável ou conveniente que eles pensassem.»

É claro, pois, que posso influenciar a escolha do cliente, se a minha opinião for aceite.

Como livreira, tenho outra forma de promover um livro ou um escritor: convido-o a participar num Café Literário, e torno possível o contacto directo entre esse autor e os seus leitores; mas nada de ilusões: o propósito final é a venda dos livros desse autor.

Neste momento, confesso, que o que menos me preocupa é a Literatura e a sua divulgação.

O que me preocupa é a necessidade de vender livros.

Disse-vos há pouco, que temos todos os dias 40 títulos novos a chegarem ao mercado.

E é aqui é que reside o cerne da questão:

- Como ter conhecimento atempado dessa oferta?

- Como conseguir vender esses cerca de 1000 novos títulos mensais?

- Como dar a conhecer ao meu potencial cliente a sua existência?

- Como conquistar mercado num sector tão fragmentado?

- Como fazer a gestão económica desta oferta?

Não vale a pena estar com um discurso «politicamente correcto» por isso serei franca: não me interessa se o livro que vendo é considerado de conteúdo «literário» ou não; interessa-me sim vendê-lo, tanto mais quanto reconheço que a nossa sociedade actual, não conta a leitura no número das suas principais prioridades.

Já o efeito devastador do actual contexto económico nacional reflectido na minha actividade comercial preocupa-me e muito.

Não posso pois, de modo algum, dar-me ao luxo de assumir uma postura elitista e recusar probabilidades de vendas, seleccionando a qualidade literária dos livros que disponibilizo na minha livraria. Selecciono sim, mas aqueles que eu leio.

Por outro lado, o meu mercado não me permite uma especialização. Sou obrigada a ser especializada em generalidades.

Não é uma opção; é uma questão de sobrevivência, imposta pelas particularidades do contexto em que estou inserida.

Não é, seguramente, a vender a «Critica da Razão Pura» de Kant, ou o «Ulisses» de James Joyce, que uma livraria como a minha, consegue subsistir.

E vou confessar, correndo, quem sabe, o risco de ser convidada a sair, que não me importava nada – dava-me até muito jeito – ter amanhã, para vender, uma qualquer nova «Carolina Salgado». Acreditem porém que me custa muito admiti-lo.

Apesar do exposto, tenho e terei sempre o maior orgulho e prazer em ser a anfitriã de alguns dos mais ilustres escritores do nosso universo literário.

Conto receber muitos mais, se possível, muitos mais do que aqueles que já tive o gosto de receber até agora – e já foram mais de meia centena – sob o signo da partilha de leituras com a minha cidade.

Também tenho um agrado muito especial em alimentar um blog sôfrego de informação bibliográfica, quase toda relacionada com a história ou personalidades caldenses, resultante de mais de vinte anos de pesquisa e coleccionismo.

E a finalizar, novamente as palavras de um amigo: Fernando Pessoa

É verdade ou não, que:

O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
Sem edição original.

Muito obrigada."

Torres Vedras, 28 de Março de 2009

3 comentários:

Isabel X disse...

Talvez possa chegar à conclusão de que vender livros, objectivo primeiro e legítimo, de quem disso faz modo de vida - o(a) livreiro(a) - nada tem, afinal, a ver com literatura? Por improvável que seja, é o que se infere do testemunho pungente que aqui li!
- Isabel Xavier -

girassol disse...

Bravo Isabel!... Fantástica intervenção. Pena como livreira não ser possível dedicar-se só a divulgar o que considerasse bons, ou pelo menos razoáveis, livros. Confio no seu bom gosto. Promover um livro deveria poder ser por, e só, por acreditar no seu conteúdo. Não é assim.

Um beijo, Isabel
E vá-nos ajudando a fazer a necessária triagem...

Luis Eme disse...

gostei da sinceridade, Isabel.

não se vive (quase nunca) dos sonhos...