Partilhando leituras

Livros sobre Caldas da Rainha, Rainha D. Leonor, Bordalo Pinheiro, caricaturas,

cerâmicas, gatos e algo mais...

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

O Orçamento


Janeiro

No dia de S. Policarpo (26), Fontes Pereira de Melo imponentemente montado num dromedário cor de mel, ergue a sua varinha mágica, aponta-a em direcção a um ignoto horizonte e logo surge uma estrela brilhante iluminando tudo e todos, como se de mil sóis se tratasse.

Fontes não está sozinho. Acompanham-no na sua temerária corrida dois dos seus mais fiéis ministros.

Enquanto isso, preso numa bola, um professor das economias, carismático e realista, conhecido por passar a vida a vociferar quanto ao despesismo e à corrupção.

Incomodativo, resmunga que se farta, mas quem deve, não o ouve.

Faz vento, frio e chuva.

Gatos vadios correm a abrigar-se sob um chapéu de chuva abandonado. Alguém já anda descalço, pois ali jazem uns sapatos sem pés.

Brilha em todo o seu esplendor a luz incandescente proveniente da estrela cadente.

Iriante, brilha o orçamento…

Ilustração de Rafael Bordalo Pinheiro publicado como enquadramento ao mês de Janeiro, no Almanaque d’ O António Maria do ano de 1883.

Não sei porquê esta ilustração fez-me lembrar qualquer coisa… Oh! diabos, onde é que estão os meus sapatos?...

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

368.ª Página Caldense


Manual do Viajante em Portugal

"Em frente do hospital o club, onde se dão, no verão, reuniões, bailes, concertos e outras diversões muito concorridas, e um vasto terreno, o Parque da Copa, com um grande lago, diversos jogos desportivos e longas ruas ensombradas por plátanos seculares. A igreja matriz, Nossa Senhora do Pópulo, construída em 1448 a 1502 e restaurada por D. João V, tem uma interessante torre. Ao N. o Chafariz das Cinco Bicas, de construção imponente; e a Mata, aprazivel passeio com terreno de corridas e outras diversões." [Pág 171]

[Manual do Viajante em Portugal de L. de Mendonça e Costa, concluído por Carlos d'Ornelas. Com itinerários de excursões em todo o país, e para Madrid, Paris, Vigo, Sant'lago, Salamanca, Badajoz e Sevilha. 5.ª Edição. Junho de 1924. Typ. da "Gazeta dos Caminhos de Ferro", Rua da Horta Seca, 7 - Lisboa.]

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Bestsellers ?


Surgiu nos jornais e em vários blogues mais vocacionados para o debate dos assuntos relacionados com a edição e comercialização dos livros, uma curiosa polémica.

Discute-se: - que título vendeu mais no ano de 2009?

- O Símbolo Perdido, de Dan Brown (Bertrand)
Ou
- Fúria Divina, de José Rodrigues dos Santos (Gradiva)

O nosso bestseller do ano transacto não foi nenhum destes títulos.

Foi um livro cujo título é "A Praça da Fruta", da autoria de Carlos Querido e edição da responsabilidade da Corrida das Letras, uma novíssima editora chegada ao mercado.

A importância dos nichos de mercado.

Prémios Edição Ler / Booktailors

Mais uma vez os leitores e os apreciadores de livros podem votar em diferentes modalidades para escolher as obras ganhadoras do prémio Ler/Booktailors.

Ver aqui

Os prémios serão entregues no decorrer das Correntes d’Escritas, na Póvoa do Varzim.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Preito de Homenagem

Lá fora um chuva fininha cai sobre as pessoas que num passo apressado caminham lutando com os chapéus que o vento teima em revirar.

A gata que dorme no seu canto abre um olho numa interrogação. Que se passa por aqui que incomoda o meu descanso?

Ele entra com ar decidido, passa as mãos pelos ombros a dispersar umas quantas gotas de chuva, equilibra melhor o monóculo no olho direito, engelha o nariz e diz, alto e em bom som:

- "Estão à minha espera, não é verdade?"

Surpreendida e encabulada, articulo com dificuldade meia dúzia de palavras:

- Estávamos sim, mas não o esperávamos tão cedo…

- "Sempre gostei de surpresas! Vim mais cedo porque quero saber o que por aqui se passa. Já dei por aí umas voltas. Desci pela rua que tem o meu nome, passei pelo hospital, dei uma volta pelo parque, subi à praça, caminhei por esta rua aqui em frente e reconheci logo este prédio. Mudaram os azulejos mas a fachada está quase na mesma. E entrei."

Senta-se, olha para mim e apercebo-me das rugas marcadas no seu rosto, amenizado por um certo ar zombeteiro e o seu bigode farfalhudo e bem aparado, apresenta, aqui e ali, levíssimos traços brancos.

Predominante, a sua poupa formada por um cem número de caracóis artisticamente armados, confere-lhe um ar de dandy, simultaneamente elegante e sedutor.

Entrementes o gato abeira-se e queda-se a ouvir-nos.

Conversamos sobre tudo e sobre todos. Confesso-lhe o quanto lamento o facto de não o ter por cá a desenhar esta nossa realidade, por vezes tão irreal.

Que grandes páginas paródicas podia assinar!


Segredo-lhe que podemos queixar-nos de muitas coisas, menos da existência de situações e/ou personagens burlescas; essas não nos faltam; até as temos em demasia.

E ali estávamos em íntima cavaqueira quando, silenciosa e sorrateiramente, o gato salta-lhe para o colo e logo se aninha enrolando-se sobre si mesmo, numa atitude de entrega total.

Enquanto isto, na rua a chuva chove a bom chover.


Divagação a partir das obras de:

Carlos Constantino que modelou em barro um busto de Bordalo Pinheiro e de Carlos Moreira que o desenhou acompanhado do gato Gil Vicente, a partir de uma fotografia de RBP datada de 1874/5.

Busto e ilustração feitas em homenagem a Rafael Bordalo Pinheiro, 105 anos decorridos após a sua morte, ocorrida a 23 de Janeiro de 1905.

Ambas as obras podem ser admiradas na Loja 107, que agradece a amizade e elogia a criatividade dos dois Carlos.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Efeméride

Se fosse vivo, Eugénio de Andrade faria hoje 87 anos.

"1,2,3

Um, dois, três,
lá vai outra vez
o gato maltês
a correr atrás
da franga pedrês,
talvez a mordesse
apenas no pé,
o sítio ao certo
não sei bem qual é
(quatro, cinco, seis),
ou só lhe arranhasse
a ponta da crista,
e talvez nem isso,
seria só susto,
ou nem sequer mesmo
foi susto nenhum;
sete, oito, nove,
para dez falta um."
"O lagarto

Vejam que janota
o lagarto vem!
Parece um ministro.
Irá a Belém?

Vem do costureiro?
Vem de trabalhar?
Que pergunta tola:
Vem só de almoçar.

E que bem que comeu
O nosso janota!
Quem seria o parvo
Que pagou a conta?"

[Aquela Nuvem e Outras. Poemas de Eugenio Andrade. Ilustrações de Joana Quental. Quasi Edições. Junho de 2005]

sábado, 16 de janeiro de 2010

Perfil do Blogger


- Dois terços são homens;
- 60% têm entre 18 e 44 anos;
- A maioria tem uma educação superior à da média da população;
- Mais de metade são casados;
- Mais de metade têm filhos;
- Metade têm emprego fixo a tempo inteiro.

Fonte: Visão, de 17 a 23 de Dezembro de 2009.

367.ª Página Caldense

Antologia da Terra Portuguesa
A Estremadura
Introdução, selecção e notas: Urbano Tavares Rodrigues


“A Fábrica das Caldas da Rainha

Uma grande parte dos principais tipos do nosso incomparável vasilhame português, convertida em artigos de luxo pela delicada aplicação de um acessório ornamental: o alcatruz das nossas noras mouriscas; o moringue, que importámos da Índia e da América; o jarro chinês, imitado da taça Tsio e da taça «dos grandes letrados» que os nossos viajantes da China trouxeram pela primeira vez à Europa; várias bilhas populares, em que se conservam com admirável pureza as formas gregas e romanas da «cratera», do «bombylio», da «ambula» e do «cantharo» consagrado a Baco; muitas das formas que herdámos dos árabes, como a «almotolia», a «alcanzia», o «alguidar», a «bátega», a «aljofaina»; os vasos figurativos, imitação dos que fomos os primeiros a ver, no Peru e no México; os vários recipientes de origem propriamente popular, como os funis, os pichéis, as púcaras, as quartinhas, as ancoretas, os cantis e os tarros. Inúmeros motivos decorativos, uns tradicionais, outros inteiramente novos, tirados da fauna e da flora desta zona da Estremadura: flores e folhas de cardo, de pimentos, de girassóis, de hera, de vinha, de oliveira, de papoila, de carvalho, de feijoeiro; algas, pimentos, conchas, musgos, asas de grilos, cabeças de camarões, caranguejos, tartarugas, ruivos, mexilhões, enguias, rãs, lagostins; grupos de frutas, de peixes, de parrecos e de pintassilgos; revoadas de pombos e de andorinhas, ondulações de lagartos, lampejos doirados de escaravelhos e de abelhas; estilizações ou simples atitudes de carneiros, de bácaros, de burros, de touros, de gatos borralheiros e de gatos bravos; variadíssimas aplicações ornamentais de ferramentas ou de utensílios domésticos, gigas vindimas, cabazes, alforges, seirões, borrachas, esteiras, abanos, tamancos, odres, redes, bóias, cordames e linhas de pesca.” […]
(Da monografia “A Fábrica das Caldas da Rainha”)

Pág. 50/51

[Antologia da Terra Portuguesa. A Estremadura. Introdução Selecção e Notas de Urbano Tavares Rodrigues. Livraria Bertrand, Lisboa.s/d.]

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Amizade(s)


Querida Amiga

Bom passar pela tua livraria atulhada de livros e de memórias boas e de coisas felinas. Trocar dois dedos de conversa, falar desta cidade, de projecto novos ou relembrarmos-nos de antigos e sempre a teimosia saudável de não desistir.

"A 107" faz parte viva desta cidade, deste país e de mim própria.

E os gatos continuam a ser testemunhos da nossa amizade.

E aqui para nós que ninguém nos ouve, eu acho que a Isabel já fala "miês", ou então, mais provável, a Florbela aprendeu português de tanto conviver com livros.

um beijo grande
Margarida


[Dois ternos abraços (meu e da gata Florbela) à Margarida pela sua amizade]

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

366.ª Página Caldense

Princesse Rattazzi

Le Portugal a vol d'Oiseaux - Portugais et Portugaises


"Letre ving-quatrième

Je ne sais si toutes les résolutns que j’ai prises étaient bonnes et valaient la peine d’être tenues. En tous cas, je n’ai jamais tarde à les mettre à exécution, et mon voyage à Caldas da Rainha en est une preuve.

L’impartialité et l’exactitude sont les dex qualities essentielles du journal d’un touriste. […]

La diligence desservant Carregado et Caldas da Rainha est attelée de cinq mauvaises mules. C´était à cele dês cinq cabiolerait le plus, et nous procurerait le plus de cahots. De temps en temps, dans les montées, alors que le train se ralentissait et nous permettait de fermer les yeux, nous étions réveillés en sursaut, par le conducteur regardant, le face joviale, dans l’étroit vasistas,et nous demandant d’une grosse voix enrouée, «si nous étions bien, si nous avions assez de place»." […] [Pág. 361]

[Le Portugal a vol d'Oiseuax, Portugais e Portugaises - Princesse Rattazzi - Paris, A. Degorce-Cadot, Éditeur - 9, Rue de Verneuil. 1879 (?)]

sábado, 9 de janeiro de 2010

365.ª Página Caldense

A Cerâmica de Rafael Bordalo PinheiroAida Sousa Dias / Rogério Machado
Fotografias Estúdio Homem Cardoso, por Francisco de Almeida Dias

[Lello Editores - Novembro de 2009 - ISBN - 978-072-48-1872-6 - 2.ª Edição]

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Honoré Daumier






Honoré Daumier

"Honoré Daumier, peintre, caricaturiste et sculpteur français, né à Marseille en 1808, mort à Valmondois en 1879. D'abord saute-ruisseau chez un huissier, puis commis libraire, Daumier fait son apprentissage chez un imprimeur lithographe, et étudie les maîtres ( Rubens, et Goya en particulier), au Louvre.

Républicain convaincu, il participe à la révolution de Juillet 1830 er réalise ses premières caricatures politiques pour le journal La Caricature. deux ans plus tard, il est condamné à six mois de prison pour son dessin de Louis-Philippe en Gargantua.

En 1835, la loi contre la liberté de la presse l'oblige à s'orienter vers la caricature de moeurs : series des Moeurs Conjugales Robert Macaire ( 1839-1842), Scènes parlementaires (1843), Gens de justice, Les Bons Bourgeois ( 1845-1848), etc.

Il travaille également pour Le Charivari, qui le congédie en 1858, puis le reprend cinq ans plus tard.

Eternellement pauvre, l'artiste finit par s'installer à Valmondois, où Corot lui fait cadeau d'une maison.

L'exposition rétrospective que Durand-Ruel lui consacre en 1878 ne connaît aucun succés auprès du public.

Daumier meurt aveugle l'année suivante, âgé de soixante et onze ans.

Sa production lithographique ( environ quatre mille pièces) où la verve polémique est soutenue par la force graphique et expressive du dessin, a injustement occulté sa peinture dans laquelle il fait preuve d'une originalité et d'une liberté formelle inédites à son époque. Les mêmes qualités se retrouvent dans son oeuvre sculpté : Ratapoil (1850)"

" L'Aventure de l'Art au XIXème siècle" Editions du Chêne Hachette sous la direction de J.L. Ferrier 1991 (extrait p.873 )


Fonte: Mondes des Arts

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

363.ª Página Caldense

Correspondendo ao interesse de vários leitores, continuamos a fazer folhear:
As Amantes de D. João V
de
Alberto Pimentel

“Quando em 1742 D. João V sofreu o primeiro ataque de paralisia, o físico Bernardes teve este dito de espírito, que brigava com as conveniências palacianas:

- Cure-o João Jaques, que sabe o que lhe fez, e Manuel da Costa, que sabe o que ele fez.

Não obstante o Rei negá-lo aos médicos, toda a gente sabia até que ponto D. João V abusava dos excitantes.

Lord Freeman, que viajou em Portugal de 1778 a 1779, diz numa das suas cartas que «D. João V dissipou a sua vida com clérigos e mulheres; que depois de ter introduzido a Patriarcal, deixou reduzir a tropa a nada, e que decaído pela idade, para gozar mais tempo das damas, tomou cantáridas, as quais o reduziram a uma suma frouxidão; que tendo vivido como sultão, fez as pazes com o Céu, e acabou como santo, segundo as vozes dos lisonjeiros padres que lhe assistiram.»

Costigan e outros falam pela mesma boca.

Depauperado, exangue, o Rei vira chegar a paralisia complicada com reverdecimentos de antiga luxúria asiática, por me servir da linguagem de Santo Agostinho.

Não vampirizou, para robustecer-se, o sangue das crianças, como de Luís XI conta a lenda, nem chuchurreou no peito das mulheres, para alimentar-se a leite, como o cardeal D. Henrique.

Voltou-se para Deus e para as Caldas da Rainha.”

[Página 199 - As Amantes de D. João V, Alberto Pimentel, Bonecos Rebeldes, 3.ª Edição, Fevereiro de 2009]

PS – Amanhã daremos seguimento a tão empolgante história…

domingo, 3 de janeiro de 2010

362.ª Página Caldense


Caldas da Rainha - Feira de Gado
Um dos aspectos mais típicos
Edição de Fernando Daniel de Sousa


Afinal depois de tantos palpites, que ia para ali e para acolá festejar a passagem do fim de ano - balelas, está visto - restei-me por cá.

E como sempre, em início de ano ano, fazem-se promessas e traçam-se projectos.

Uma das minhas intenções é de pôr ordem nos meus postais caldenses; posso começar logo por este, que nos retrata uma feira de gado, uma imagem de arquivo que muito dificilmente se repetirá ao vivo nos dias de hoje.

Tempos de outra vida, sentida no olhar interrogativo do jovem que apoiado na canga, olha para um futuro, que hoje já é passado.