CAVACOS DAS CALDAS II

DICIONÁRIO GRÁFICO BORDALIANO

alguns livros, cerâmicas, belos gatos e algo mais...



sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

O Caco


Este pedaço de azulejo apanhei-o do chão na antiga Praça do Peixe, percurso habitual das minhas caminhadas  citadinas. Caiu da fachada de um prédio que se encontra em muito mau estado de conservação,  mas que é rico em azulejos, marca da arquitectura caldense na transição do século XIX para XX. Este caco, um pequeno pedaço de azulejo verde é bem o retrato da cidade. Ao abandono e a desfazer-se aos bocados. Enquanto é feita uma recuperação do pavimento das ruas, as fachadas das prédios encontram-se mal tratadas, e sempre, sempre com os abomináveis grafitis, que apesar de todos os esforços em contrário, nascem da noite para o dia como ervas daninhas. Será que não se pode explicar a quem anda a conspurcar as paredes das casas, que isso é vandalizar a propriedade alheia, e que aquela riscaria toda não é propriamente uma obra de arte que deixe todos agradecidos e de boca aberta de espanto? Porque é que esses pseudos criadores não se limitam a pintar as paredes dos quartos em que vivem? Eles ficavam mais felizes porque preservavam as suas obras; e nós também, porque éramos poupados aquelas visões de duvidoso valor estético .

domingo, 16 de dezembro de 2012

Caldas da Rainha MCMXXIII

Ontem publiquei a noticia referente à publicação do Álbum das Caldas, 1923, da responsabilidade da Associação Comercial. Faltou uma informação: o Álbum e o mapa vendem-se em conjunto a 5 Euros. Ontem, sábado, estava à venda na rua, no inicio da Rua Dr. Miguel Bombarda, do lado da Rua Heróis da Grande Guerra. A Associação Comercial, na Av. 1.º de Maio é outro local de venda.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Parabéns Associação Comercial



A Associação Comercial das Caldas da Rainha e Óbidos que comemora 110 anos de existência, resolveu publicar um mapa das Caldas da Rainha - que bem necessário era porque o que havia tinha uns largos anos em cima - a que juntou uma edição facsimilada do Álbum Caldas da Rainha de 1923.
Saudamos esta Iiniciativa  com muito apreço.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Agradecimento

Ao Victor Pires o meu muito obrigada pelo seu carinho e pelos seus ensinamentos. Um abraço amigo
Isabel

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Indiscrições

"Exma. Senhora D. Elvira Agoas Barreiras
Rua da Penha de França nr 137 Lisboa
Caldas da Rainha (data do carimbo: 22 de Agosto de 1921)

Minha Querida Elvira:

Para te provar que ainda sei escrever desejo saber se estás boa assim como o Augusto, nós felizmente bem mas muito combalidos com os tratamentos que é muito maçador razão porque não te tenho escrito ando muito cansada. Tenho sabido da vossa saúde pelo Júlio, quando vai a Lisboa. Também tenho descansado mais por causa disso. Dá muitas saudades ao Augusto e tu aceita um grande abraço da tua irmã muito amiga que é a Maria Ruivo."

Indiscretamente transcrevi o texto de um postal ilustrado enviado das Caldas da Rainha para Lisboa na época do verão dos anos 20 do século passado. O postal mostra-nos uma parte do Parque das Faianças existente junto à Fábrica fundada por Rafael Bordalo Pinheiro. Lugar aprazível, de diversão e de descanso, decorado com cerâmicas de grande dimensão, não deixando por isso de ser um lugar de trabalho. Veja-se a personagem em primeiro plano que carrega sobre o seu ombro esquerdo um bilha? ou barril de pequeno formato?... Não sei. Note-se o garboso representante das forças armadas, elegantemente sentado num banco Junto a uma peça de cerâmica de tamanho considerável. Parece-se um Santo António: não é uma figura masculina tendo ao colo um menino?
Quando a estas imagens dos anos idos, só nos resta fantasiar sobre elas. Nada restou. Sem querer ser saudosista e só valorizar o que havia antes, lamento que o nosso património seja esquecido e mau tratado. Principalmente a nossa herança cerâmica. E mudando de rumo; o que vai ser do nosso Parque? Subsistiu mais de cem anos. E agora? Vai conhecendo uma deterioração contínua e uma inexorável destruição? Lá pela cidade ter um aspecto pouco cuidado, a que os grafitis que conferem um ar totalmente terceiro mundista, vamos deixar que o Parque tenha o mesmo destino?




segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

O Garrido Espectáculo dos Mercados Caldenses

ALBUM DAS CALDAS N.5 – 1934
Director e Editor: J. Fernandes dos Santos
Composição e Impressão: Tipografia Caldense

«O garrido espectáculo dos mercados caldenses»

«São de criar saudades estas manhãs de verão – e porque não dizer manhãzinhas se tudo em redor é suave e calmo e terno nos campos ainda orvalhados e sempre frescos dos arredores.

Vê-se acordar o Sol num estremunhamento preguiçoso em berços de cambraias transparentes, nuvens finas, que não são nuvens, vendo bem, e é apenas a névoa azul e delicada do alvorecer que lentamente se desfaz e evapora. Há um perfume raro e estranho, mais entendido pela vista que sentido pelo olfacto. É o bucolismo dos pinheirais muito quietos em filas no horizonte, da mancha dos laranjais opulentos dos frutos luminosos em conjunto com rectângulos verdes das hortas, com as árvores velhas dos pomares e a cabeleira farta das searas. De quando em quando sardinheiras e papoilas selvagens a espreitar entre a rama rasteira dos batatais na intimidade dos malmequeres miudinhos, confetti dos campos, que escondem entre eles o bom agoiro do trevo de quatro folhas. Passa o melro triste na distância e sobe dos casais, num jeito de asas, o fumo das chaminés branquinhas.

E assim, de alma arejada no convívio puro da natureza, o meu amigo «saloio» e a família descem por carreiros estreitos no terreno e vêm formar na estrada, no desfile de cor e rico pitoresco a caminho do mercado na Praça Velha.

Burritos pachorrentos carregados com os frutos da novidade dos campos e trazendo no alto, sobre o dorso entre os alforges, a figura graciosa e gentil da moça aldeã que mostra nas faces o anúncio da saúde, nos olhos o alvoroço ingénuo da festa prometida e sempre um sorriso ou uma cantiga na boca fresca que costuma beijar, em horas de sede durante a faina, o curso cantante dos riachos límpidos.

E as saias azuis, rodadas como as das bonecas, aventalinhos de gosto rústico, e saborosos colos, acompanhando em tremuras discretas o andamento baloiçado do burrito chocalhando e feliz no paganismo delicioso do quadro.

Horas depois é ainda o Sol que comanda, lá de cima, o espectáculo vibrante e inquieto do mercado na cidade. Brinca no vidrado rubro dos canjirões e das vasilhas, dos tarros e alguidares, acaricia as maças vermelhas e carnudas, os matacões rosados, a epiderme verde-mar das melancias, em pilhas junto das toalhas duma alvura de paramento, onde repousa, sob toldos com riscas amarelas, o oiro quente do pão de milho, como imagem de altar em festa do povo. Faíscam lampejos esbranquiçados os almudes, os baldes e botijas de latas expostas mais abaixo. Como enormes flores exóticas, no caprichoso colorido do cenário, destacam-se os grandes chapéus azuis, de varetas compridas, e em amostras cuidadas e doce regional e os cestos do tremoço são tentações infantis.

E o barulho rumorejante é de ritmos ensaiados entre a cadência das ondas ali perto e o chalrar da passarada dos caminhos em volta.

Que linda coisa o mercado!

De vez em quando um harmónio, um coro de vozes em liberdade, gargalhadas mais fortes, o chiar estridulo dos carros de bois tentando hinos de alegria e de saúde que ficam em sussurro harmonioso na sinfonia da tarde de domingo.

E já o Sol se despede.

Faz-se o regresso, organiza-se o cortejo vistoso e belo a caminho dos casais e das aldeias. Levam compras os meus amigos «saloios». Os alforges voltam novamente cheios. É o peixe, oferta do Mar, os embrulhos dos mercados, loiça de utilidade para o lar e no chão, levantando poeira doirada da estrada, um grupo de leilões traquinas e farejantes, sempre em corridinhas em busca do vulto farto do seio materno que segue adiante entre grunhidos alarmados.

Então os «saloios» cruzam com outras figuras do mercado. São as varinas, grupos escuros em contraste, saia negra pela cabeça, empoleiradas em cachos, formado conjuntos tristes, trágicos, como se a alegria do domingo não contagiasse as almas que só entendem as ondas e só com elas conversam seus mistérios e confidências.

Na cidade o mercado desmancha-se como um arraial. O domingo finda. E ainda o Sol está beijando num último e demorado adeus o campanário bonito da torre da igreja.

Os turistas passam talvez o dia à procura de castelos históricos e de praias famosas. E é pena. O espectáculo do mercado devia estar em todos os guias e convites como atractivo principal para quem procura a distracção e a felicidade.»

Luiz Teixeira