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sexta-feira, 11 de março de 2011

A Conferência de Imprensa do Castor



- «Sr. Dr. Castor, durante a sua campanha eleitoral, o Sr. Dr. Castor prometeu que, no caso da vitória do seu partido, seriam retiradas todas as ratoeiras. Porque é que isso não sucedeu?

- Já afirmei várias vezes, em diversas oportunidades, que fomos eleitos para representar a vontade do povo, e não para impor as nossas convicções, por mais acertadas que estas nos pareçam. Embora fosse opinião nossa que as ratoeiras deviam ser retiradas, opinião que em diversas oportunidades claramente exprimimos, verificámos ao assumir o poder e as suas inerentes responsabilidades que durante períodos consideráveis da nossa história houve ratoeiras, e que, portanto, os ratos só estavam habituados a viver com elas e em sua função, como poderiam reagir mal à sua súbita retirada. Como não somos dogmáticos, estamos sempre dispostos a rever as nossas opções.

- Sr. Dr. Castor, pensa que a longo prazo o seu governo irá no entanto retirar as ratoeiras?

- Encontram-se programadas, na agenda do ministério respectivo, algumas acções de sensibilização das populações, no sentido de as levar … digamos, de as levar adquirir uma nova óptica que possa vir a influenciar as nossas opções a longo prazo, Concretamente, posso adiantar que a longo prazo faz parte dos nossos planos as ratoeiras virem e ser drasticamente reduzidas e/ou substituídas por instrumentos mais adequados. Mas para tal há que recolher ainda primeiras informações, analisá-las, sintetizar e criticar as necessidades, explorar os dados criticados e seguidamente definir, quantitativamente e qualitativamente, as necessidades funcionais das populações.

- Sr. Dr. Castor, o Sr. Dr. Castor falou há pouco de acções de sensibilização, Sr. Dr. Castor: como serão essas acções?

- Depende: serão diversificadas de acordo com o perfil das populações participantes. O CNESER (Centro Nacional para o Estudo Efectivo das Ratoeiras) dá o seu parecer no que toca à ordenação do território por «ambientes» de arratoeirização e rerratoeirização progressiva. Esse parecer passa pela avaliação das necessidades reais das populações, tanto de forma global como detalhada; pela elaboração de programas de rerratoeirização central e autárquica, bem como pela definição dos seus imperativos qualitativos e quantitativos.

- Sr. Dr. Castor, durante a campanha eleitoral, o Sr. Dr. Castor prometeu queijo e toucinho entremeado, mas não disse que o iria pôr nas ratoeiras. Porquê?

- Considera-se fundamental para a eficácia de qualquer distribuição, como é óbvio, que esta seja feita de modo racional, como tem sucedido no caso apontado; de resto, a entidade destinatária, através dos seus legítimos representantes, foi consultada no equacionamento das perspectivas da utilização e distribuição dos mencionados géneros.

- Sr. Licenciado Castor, pode explicar os motivos que o levaram a associar-se com o gato e com a ratazana?

- Os motivos nem sempre se podem explicar: apresentam-se ou enumeram-se; lembro-lhe que há razões de Estado que, como certamente não ignora, não podem ser divulgadas, e cuja divulgação teria de considerar-se como traição. Posso no entanto adiantar que o gato e a ratazana são velhos aliados nossos e se, em tempos, cometeram erros, não há motivo para hoje duvidarmos da sua boa fé. É preciso andar com os tempos.»


Alberto Pimenta
Bestiário Lusitano
Edição do autor, com o apoio de um grupo de subscritores e de Publicações Culturais Engrenagem, Lda.
Escrito durante o ano de 1979, segundo o lema de B. Brecht «Outros falam da sua vergonha, eu falo da minha.»

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