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sábado, 19 de março de 2011

Cidade Popular

António Montês
Terras de Portugal
1.ª Série
Data de Edição: 1939
Prefácio: Henrique Galvão

“Das «Terras de Portugal», a cidade das Caldas da Rainha, de que nos vamos ocupar é das mais conhecidas, das mais populares!

Deram-lhe fama as suas águas medicinais, realizando curas milagrosas durante séculos; deram-lhe graça e simpatia as suas loiças características, espalhadas por toda a parte; deram-lhe vida e alegria os seus mercados, opulentos e coloridos – mostruários preciosos dum dos mais belos rincões extremenhos.

Não há terra portuguesa cujo nome seja conhecido de Norte a Sul, tenha galgado fronteiras e deixado gratidão e lembrança nos que a visitam, essa terra é a cidade das Caldas da Rainha, cuja fundação está envolvida em lenda cheia de ternura, a que a bondade duma mulher deu especial encanto.

Falar das Caldas da Rainha, é recordar o vulto inconfundível de Mulher portuguesa, que foi a rainha D. Leonor. Falar das Caldas da Rainha, é lembrar o nome de José Malhoa, o mais português dos pintores de Portugal. Falar das Caldas da Rainha é lembrar ainda o nome de Rafael Bordalo Pinheiro, o reformador da sua cerâmica tradicional!

Quando numa tarde quente de Junho de 1484, a rainha D. Leonor, acompanhada da sua luzidia comitiva, seguia de Óbidos para a Batalha, onde ia assistir às solenes exéquias reais por alma de D. Afonso V, topou poucos quilómetros andados, com um espectáculo impressionante: - um grupo de chaguentos, torcendo-se com dores, disputava a entrada numa poça de água fumegante, procurando alívio para os seus males!

Ao ver tão estranho e horroroso espectáculo, deu alto à comitiva. Inquiriu do que se tratava e, ao ouvir dizer que aquelas águas eram milagrosas, abandonou a liteira e, precedida pelas damas da sua câmara, quis experimentá-las num mal incurável, que há muito a atormentava.

Consultado Mestre Manuel António, físico-mór, descrê das virtudes das águas e é, então, que a rainha entra numa barraca, onde tantas vezes os pobres chaguentos se albergaram. Pediu um alguidar com água e, banhando o peito naquelas águas cálidas, viu cicatrizar o mal que a afligia, e que a medicina não conseguira debelar!

Dera-se o milagre – um dos mais lindos milagres de Portugal – e, para manifestar a sua gratidão pelas águas benditas, fez levantar no local da cura, com o produto das suas jóias e terras, um hospital, à volta do qual cresceu a vila, que mereceu a Silva Tavares os versos:

“Quero que um grande hospital
sirva as suas desventuras
apressando as suas curas
e dando alívio ao seu mal
co’as águas caldas benditas!
Quero uma vila fundar
para tudo perpetuar
como em palavras escritas.
E, para a ligar à minha
cura, por milagre achada,
tal vila será chamada
a das «Caldas da Rainha»”.

Foi esse hospital – instituição de assistência modelar – dirigida pela própria rainha, no primeiro ano da sua fundação, ficando depois na posse da Casa Real, até ao reinado de D. João III, que o entregou à jurisdição dos cónegos de S. João Evangelista, seus administradores até à extinção das Ordens Religiosas.

É um edifício de amplas proporções que, concluído em 1503, foi restaurado pelo rei Magnânimo em 1747, talvez como reconhecimento pelos benefícios recebidos das milagrosas águas, onde tanta vez se banhou.

Foi Manuel da Maia, o notável arquitecto do aqueduto das Águas-Livres, quem dirigiu essa obra que durante séculos tem albergado muitos milhares de doentes, que de todo o país ali convergem, beneficiando assim da generosidade de virtuosa mulher do «Príncipe Perfeito».

Rodeiam o hospital, que hoje tem o nome da Rainha fundadora, parques lindíssimos, onde não faltam sombras esplêndidas, que constituem grandes atractivos para a estância, onde nunca se sentem os grandes calores.

A amenidade do clima caldense é proverbial e dela disse Pinheiro Chagas: «Se um dia Portugal for feito em torresmos por um sol de rachar, será nas Caldas da Rainha que escaparão os raros sobreviventes, destinados a levar ao futuro a notícia de que existiu neste mundo uma raça, que se chamou portuguesa».

Antigo poiso de reis, que ali tinham o seu palácio de verão, passaram pelas Caldas da Rainha quase todos que, fiéis à tradição, se banharam nas suas águas de milagre.

Banham-se anualmente nas águas das Caldas, pelo Santo António, São João e São Pedro, muitos milhares de pessoas, que de terras distantes ali vá buscar alívios para os seus achaques. É o tradicional «Banho Santo», a que o Ribatejo acorre com entusiasmo, em caravanas enormes, em busca de lenitivo para dores reumáticas, que quase milagrosamente desaparecem, nas piscinas seculares do hospital.

Cortada ao meio pela estrada nacional, que liga Lisboa ao Porto, as Caldas da Rainha, oferecem, a quem as visita, interessantes curiosidades, como a igreja de Nossa Senhora do Pópulo, monumento nacional, que com uma torre original curiosíssima, uma bela abóbada artesonada, a pia baptismal de carácter gótico, azulejos hispano-árabes do século XVI, o retábul em mármore do século XVIII, um tríptico notável e um jogo de paramentos do século XVI, oferecido pela fundadora das Misericórdias.

Foi nesta igreja, e no ano de 1504, que Gil Vicente representou o «Auto de S. Martinho», perante a Rainha D. Leonor, disvelada protectora do Teatro português.

Outras curiosidades possui a cidade, como a Casa da Câmara – bela construção joanina – o chafariz das 5 bicas, os azulejos da capela de S. Sebastião, o monumento a Rafael Bordalo Pinheiro, com um belo busto de Teixeira Lopes, e o levantado a José Malhoa, com uma escultura de Costa Mota. Recentemente, dois atractivos de grande interesse se ergueram nas Caldas da Rainha: - o Museu José Malhoa, no qual figuram cinquenta trabalhos do glorioso pintor caldense, o mobiliário do seu «atelier» e algumas dezenas de trabalhos valiosos assinadas pelos mais notáveis pintores contemporâneos, e o monumento à Rainha D. Leonor, erguido há anos pelos pobres de pobres de Portugal. É um dos mais belos monumentos do nosso país, com uma magistral escultura de Francisco Franco, assente num elegante pedestal de Cristino da Silva
.”

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