CAVACOS DAS CALDAS II

DICIONÁRIO GRÁFICO BORDALIANO

alguns livros, cerâmicas, belos gatos e algo mais...



terça-feira, 28 de julho de 2009

Os Gatos do Fialho


The Cats Come to School
Louis Wain (1860-1939)

"MEUS SENHORES,AQUI ESTÃO OS GATOS!

Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, e fez o crítico à semelhança do gato.

Ao crítico deu ele, como ao gato, a graça ondulosa e o assopro, o ronrom e a garra, a língua espinhosa e a câlinerie. Fê-lo nervoso e ágil, reflectido e preguiçoso; artista até ao requinte, sarcasta até à tortura, e para os amigos bom rapaz, desconfiado para os indiferentes, e terrível com agressores e adversários. Um pouco lambeiro talvez perante as coisas belas, e um quase nada céptico perante as coisas consagradas; achando a quase todos os deuses pés de barro, ventre de jibóia a quase todos os homens, e a quase todos os tribunais, portas travessas. Amigo de fazer jongleries com a primeirra bola de papel que alguém lhe atire, ou seja um poema, ou seja um tratado, ou seja um código. Paciente em aguardar, manso e pagado, com um ar de mistério, horas e horas, a surtida de um rato pelos interstícios de um tapume, e pelando-se, uma vez caçada a presa, por fazer da agonia dela uma distracção; ora enrolando-a como um cigarro, entre as patinhas de veludo; ora fingindo que lhe concede a liberdade, atirando-a ao ar, recebendo-a entre os dentes, roçando-se por ela e moendo-a, até a deixar num picado ou num frangalho.

Desde que o nosso tempo englobou os homens em três categorias de brutos, o burro, o cão e o gato - isto é, o animal de trabalho, o animal de ataque, e o animal de humor e fantasia - porque não escolheremos nós o travesti do último? É o que se quadra mais no nosso tipo, e aquele que melhor nos livrará da escravidão do asno, e das dentadas famintas do cachorro.

Razão porque nos acharás aqui, leitor, miando pouco, arranhando sempre, e não temendo nunca.”
Fialho de Almeida

[Prefácio de "Os Gatos". Fialho de Almeida (Vilar de Frades, 7/5/1857 - Cuba, 4/3/1911).Contista, crítico de arte e costumes, jornalista, panfletário, licenciado em medicina, que praticamente não exerceu, optando pela vida literária.]

segunda-feira, 27 de julho de 2009

386.ª Página Caldense

Ilustradores Portugueses no
Bilhete Postal
(1894-1910)



"Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905) foi um artista em que a nossa admiração se reparte pela caricatura, em que foi exímio, e pela escultura aonde revelou um enorme talento.

O seu trabalho como caricaturista começou nos jornais humorísticos da época, conquistando, de imediato um grande sucesso. O seu espírito satírico debruçou-se sobre as personalidades então em foco, mas foi a sua mordaz crítica à política e à sociedade em que vivia, que o seu trabalho atingiu maior esplendor e é, hoje, publicamente reconhecido e enaltecido." [Página 43]

[Ilustradores Portugueses no Bilhete Postal Ilustrado (1894-1910). Coordenação e Textos: Sousa Figueiredo. Arte Mágica Editores. 2003.]

domingo, 26 de julho de 2009

385.ª Página Caldense

A VIDA DRAMÁTICA DOS REIS DE PORTUGAL
JOSÉ BRANDÃO

D. João II
O Príncipe Perfeito
[...]
"Em 1471, então com 15 anos, desposou D. Leonor, com 12 anos, sua prima e co-irmã, filha do Infante D. Fernando, Duque de Viseu. Da união resultou apenas um filho, D. Afonso, que casou com D. Isabel, filha dos Reis Católicos. D. Leonor de Lencastre destacava-se pela formosura e inteligência e era de temperamento muito diverso do seu real consorte. Linda e faceira, era impressionantemente bondosa. Tinha a fisionomia suavíssima, marcada pelos olhos azuis e cabelos louros, herdados da sua bisavó, D. Filipa de Lencastre". [Pág. 126]

[A Vida Dramática dos Reis de Portugal. José Brandão. Ministérios dos Livros Editores. 1.ª Edição, Setembro de 2008.ISBN 978-989-8107-7]

terça-feira, 21 de julho de 2009

384.ª Página Caldense

Exposition Universelle de Paris en 1889 / Ph. Leidenfrost. Architecte à Paris
Decoration de la Section du Portugal
Colecção de desenhos do Arquivo Histórico do Ministério
Ministério das Obras Públicas, Transportes e Comunicações
[Postal de Botas Festas]
Os meus agradecimentos à Zita Cardoso pela oferta deste postal.

domingo, 19 de julho de 2009

383.ª Página Caldense



O Livro do Meio
Armando Silva Carvalho e Maria Velho da Costa


"Passei dez anos sem por os pés nas Caldas. Lembro-me da Zaira, esse antro de mulheres ociosas, a pastelaria chique da cidade, com os seus ferros forjados nas mesas e cadeiras e na qual, diziam-me os colegas, se coziam intrigas, deboches e amores que chegavam a lésbicos. O Parque é hoje um fantasma pobre dos tempos mais ricos do turismo termal e das temporadas que eu não conheci dos judeus e das combines politicas da segunda guerra mundial.

A uma colega, marginal como eu no círculo das classes, chamavam-lhe a Periquita. O César Gomes, filho de um padeiro, foi a massa cinzenta de toda a nossa turma. E havia a família Calisto, que se sobrepunha a todas, e era a mais famosa. E havia e há as cavacas, o Zé-Povinho e outros barros de Bordalo e as romarias de Malhoa.

Pareço um folheto turístico, maninha.

E isso não vale.

Os meus cinco anos de termas caldas acabam por agora".
[Páginas 91 e 92]
* * * * * * *

"Tu nem sonhas o que eram as Caldas da Rainha nessa altura.

Havia ainda no ar um odor a Segunda Guerra, a gente estrangeira, aliás bem apanhado depois pelo Pedro Rosa Mendes que passou quase despercebido.

Quando eu falo em burgueses, não penso na política, no verso do Cesariny, nem em nada. Penso no mundo em que vivi, obrigada Ilse.

O Ramalho Ortigão era um feudo medíocre da classe liberal e possidente. Aquilo era um externato pobre para meninos ricos, pobre no ensino, nos meios, e até nas instalações, sem laboratório, sem ginásio, sem espaços.

Mas não era eu que ia exigir.

Eu sabia lá.

Sabia disfarçar-me. Agarrado ao Machado.

Machado, Machado, tu és a minha morte, dizia o professor Rosa Bruno, de dedos espetados, com as unhas de uns a limpar as dos outros.

Combinávamos passeios até à Foz, dávamos um pulo à sua câmara escura, íamos, pé ante pé, até à rua das putas, para ver.

(Quando escrevo puta, o meu computador aponta erro, mas se lhe chamo sacana não se ofende, deve ser da origem nipónica da palavra).

O Machado era um artista. Tinha uma mão ligeira a desenhar cobóis, fugia como todo o sensível dos caldinhos (divertida maneira de dar uma palmada dura no pescoço do próximo), das futeboladas da época, da brutalidade alvar de um esgalgado, dentolas, filho de um médico de fama, Amália Rodrigues, a artista que todo o mundo dis…puta! o Machado convinha-me.

Para mim, o Machado dava-me outro mundo.

Eu devia ter tacto para que não me explorassem nos intervalos e até nas aulas. A professora de Inglês, uma Suiça alta e ditadora, não gostava de mim e não escondia. Numa festa de final de ano houve umas danças.
[…]
A mestra de Francês, que usava o cabelo puxado no alto da cabeça, formando uma alcachofra, chamava-me

Distraído.

Olhava-me de lado, séria e desprezante, mas não podia dar-me negativas. Eu sabia o Bensabat com todo o gosto.

Nunca estudei em casa, não havia lugar, silêncio ou ambiente, eu não fazia ideia de nada, mas tinha uma memória grande e ainda virgem e que hoje me atraiçoa com qualquer ansiolítico.

E houve o Português logo no início.

Alguém estava a ler alto A Cidade e as Serras, houve um tique cá dentro quando a voz alcançou algum casabre que para ali galgara. Eu liguei o casebre, o galgar dos seus sons, e fiz a frase minha. Coloquei-a depois, refeita, na redacção, cujo tema não lembro, e a professora gostou.

Criámos entendimento.

Era uma mulher despachada, não era poetisa, nem usava óculos, mas afiançou a turma que eu seria um escritor.

Não me saía a sorte, saía-me um destino.”
[Páginas 337, 338 e 339]

* * * * * * *

“Ao contrário, o meu Externatozito das Caldas não metia medo a ninguém e nele tudo era liberal, prosaico e pequeno burguês.

As instalações ocupavam dois andares dum modesto prédio de habitação com uma tabuleta cá fora, apagada, como a de um notário.

Uma pobreza tão gritante permitia entre outras coisas que os filhos dos ricos partissem as carteiras, gozassem com os professores e estes fizessem vista baixa a todos os seus desmandos. Havia um desgraçado já velho, já de si ridículo, que nos dava aulas de canto coral e era alvo da maior chacota.

A criatura, não isenta de culpa, obrigava-nos a cantarolar coisas do género.

Cavaquinha, cavaquinha
Só nas Caldas da Rainha.
Já dizia o meu avô
O doce nunca amargou.”

[Página 366]

* * * * * * *

"Despeço-me das Caldas, e dessa infância descrita nesta escrita.

Vejo-me a caminhar, com um lenço na mão, calções novos de fazenda, no adro da igreja, em dia de festa . Na fotografia pareço que limpo as lágrimas, mas deve ser do nariz, que sempre me deu chatices. Tinha o monco caído, é o mais provável.

Era nas festas de Agosto que se comiam as cavacas das Caldas.

Vinham as senhoras cavaqueiras, mulheres dos arredores da cidade, camponesas, com os seus cestos de vime e lá dentro, embrulhadas em panos brancos, as cavacas frescas a saber a limão, e a calda de açúcar. Não tinham o gosto ressequido e muito doce das casas de cavacas da cidade.

E a gente prometia à outra gente uma cavaca para a Festa, como prova de afecto, no decorrer do ano".
[Página 369]

[O Livro do Meio. Autores: Armando Silva Carvalho e Maria Velho da Costa. Caminho. Colecção O Campo da Palavra. Edição: Novembro de 2006.]

Nota: Armando Silva Carvalho foi o vencedor por unanimidade da edição de 2008 do Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores / CTT

Qual o papel do Idoso no Séc. XXI - 2.ª Parte

A minha intervenção nas jornadas "Qual o papel do idoso no séc. XXI", em que me coube a apresentação do Dr. Fernando Nobre.

Muito boa tarde e muito obrigada pela vossa presença.

É para mim um prazer e uma honra estar aqui ante vós.

Conto com a vossa benevolência para, antes de passar à apresentação do nosso ilustre convidado, vos dirigir umas breves palavras.

Desde já, um agradecimento muito especial à organização das jornadas, por me permitir, a par de tão insignes convidados, participar na reflexão de um tema tão premente e actual como este: “Qual é o papel do Idoso no Século XXI?”

Não obstante os meus cabelos brancos, quando os responsáveis me convidaram a participar, a minha primeira reacção foi de recusa, porque ao questionar-me sobre o tema em questão, conclui que o meu desconhecimento era de uma acentuada e preocupante dimensão.

Livreira que sou, e amante confessada da leitura, vieram-me à lembrança autores e obras, em que o tema velhice é tratado, nuns casos com um áurea de romantismo, noutros com a cruel rudeza da realidade.

Recordo John Steinbeck, com o seu inesquecível velho marinheiro; evoco Luís Sepúlveda criador de um incansável leitor amante da vida; lembro David Lodge, gerador de personagens presas numa vida em surdina; relembro Sandor Marai com as suas surpreendentes velas de hino a uma velha amizade.

E por fim trago à memória, o autor de, porventura, alguns dos mais belos textos jamais escritos sobre a velhice: Herman Hesse, prémio Nobel da Literatura.

Autor da obra “Elogio da Velhice” partilha com o leitor os seus mais íntimos sentimentos e as suas mais profundas emoções, à medida que vai avançando nos anos, transmitindo o sentido poético de um entardecer de vida.

E os poetas? Posso eu esquecer os poetas? Não, não posso e não devo.

Mesmo correndo o risco de uma certa inoportunidade, solicito-vos que os escutem, pela voz de Olavo Bilac.

“Olha estas velhas árvores, mais belas
Do que as árvores moças, mais amigas,
Tanto mais belas quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e das procelas…

O homem, a fera e o insecto, à sombra delas
Vivem, livres da fome e de fadigas:
E em seus galhos abrigam-se as cantigas
E os amores das aves tagarelas.

Não choremos, amigo, a mocidade!
Envelheçamos rindo. Envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem,

Na glória de alegria e da bondade,
Agasalhando os pássaros nos ramos,
Dando sombra e consolo aos que padecem!”

Se o meu conhecimento quanto ao tema em debate, se limita quase só a uma visão intelectualizada, tal não me impede de me aperceber que a realidade não é, de certeza, um romance cor de rosa.

A realidade é outra.

Basta ler os jornais, estar atenta às notícias, ou escutar as conversas tristes daqueles com quem ao acaso nos cruzamos. A par das dificuldades económicas, dos achaques da saúde, das saudades dos tempos idos, o que é mais sentido é uma profunda e dolorosa solidão.

A velhice não tem de ser necesáriamente um tempo de dor, de desilusão, de tristeza, de pobreza e abandono mas impõe-se que todos nós, os mais e os menos novos, optem por uma atitude pró activa perante a vida.

Há quem se preocupe com problemas sociais que hoje se sentem, com especial incidência num determinado grupo etário mais frágil, mais desamparado ou mais desprotegido.

Mas, mais do que reflectir ou preocuparem-se, algumas pessoas, ocupam-se e agem.

Actuam no terreno, combatem a exclusão social, lutam contra a pobreza, saram as feridas do espirito e do corpo.

São homens e as mulheres de coração e de coragem.

Junto a mim, um desses homens.

Também autor de vários livros que nos transmitem a sua vivência actuante em alguns dos locais mais sensíveis espalhados pelos quatros cantos do mundo, é um homem de acção com uma grande experiência de intervenção de carácter humanitário.

Presidente da AMI - Assistência Médica Internacional – o Dr. Fernando Nobre pelo seu trabalho, intervenção e dedicação em prol dos mais necessitados e auxílio prestado a populações em risco, é altamente merecedor da nossa admiração e sobretudo da nossa profunda gratidão.

Dr. Fernando Nobre, com os meus, e seguramente nossos mais sinceros agradecimentos, queira por favor partilhar connosco o seu saber de experiência feito.

Muito obrigada por estar hoje na nossa companhia.
CR, 17 de Julho de 2009

quarta-feira, 8 de julho de 2009

B: MAG

Uma nova fonte de informação para quem se interessa por livros: Booktailors - Publishing Magazine. A ler aqui.

sábado, 4 de julho de 2009

382.ª Página Caldense


Estudos para Gatos
Rafael Bordalo Pinheiro
Lápis sobre papel s/ assinatura, cerca de 1880
In: Guia do Museu Rafael Bordalo Pinheiro

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Prémios de Edição Ler / Booktailores

A 2.º Edição dos Prémios Ler / Booktailores abriu o seu processo de candidatura.

Um conjunto de prémios visando os profissionais do livro, considerando um muito vasto âmbito de actividades. Todas as informações aqui.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

391.ª Página Caldense

Gazeta das Caldas, Ano VII - nº. 307 - 27 de Dezembro de 1931, Página 5 Continuação - Página 8

Cerâmica Caldense
A Faiança das Caldas e a espontaneidade de Rafael Bordalo

[...]"Como surgiu repentinamente Rafael Bordalo, oleiro e faiancista?

Segundo as informações orais que consegui obter e os resultados das investigações que fiz nesse sentido, julgo poder afirmar que a ideia da criação de uma fábrica de faianças nas Caldas da Rainha, sob a direcção de Rafael Bordalo, foi devido a seu irmão Feliciano, que, veraneando nas Caldas, teve ocasião de ver e apreciar a curiosissima industria que tanto agradara ao veraneante e que alguma conseguira já criar no estrangeiro.

A faiança das Caldas interessou certamente Feliciano Bordalo Pinheiro, sobretudo sob o aspecto Industrial, como se pode deduzir do seu temperamento, essencialmente prático. E, como homem prático, anteviu que aquela caracteristica faiança, que se arrastára na reprodução monótona de repetidissimos e estafados modêlos, quer nacionais, quer estrangeiros, já não satisfazia por completo as exigencias do mercado de então, mesmo como arte puramente popular.

Nas visitas às fábricas no contacto constante com o fabricante e com o pequeno industrial, surgiu-lhe, enfim, a ideia da fundação de uma fábrica que aperfeiçoasse a indústria cerâmica portuguesa, elevando-a a um grau de perfeição e beleza que estava longe de possuir.

Ao estudarmos as faianças de Rafael Bordalo, reconhecemos como bem notou o Prof. Sousa Pinto, que «Bordalo na cerâmica, como na caricatura, foi a espontaneidade feita da arte»."[...]

Julieta Ferrão

390.ª Página Caldense

Bloco Filatélico - Caricaturistas Portugueses com carimbo comemorativo "13o Anos do Zé" - Caldas da Rainha, 12-6-2005

Bloco Filatélico Faiança Portuguesa
Caricatura de Rafael Bordalo Pinheiro