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domingo, 19 de julho de 2009

383.ª Página Caldense



O Livro do Meio
Armando Silva Carvalho e Maria Velho da Costa


"Passei dez anos sem por os pés nas Caldas. Lembro-me da Zaira, esse antro de mulheres ociosas, a pastelaria chique da cidade, com os seus ferros forjados nas mesas e cadeiras e na qual, diziam-me os colegas, se coziam intrigas, deboches e amores que chegavam a lésbicos. O Parque é hoje um fantasma pobre dos tempos mais ricos do turismo termal e das temporadas que eu não conheci dos judeus e das combines politicas da segunda guerra mundial.

A uma colega, marginal como eu no círculo das classes, chamavam-lhe a Periquita. O César Gomes, filho de um padeiro, foi a massa cinzenta de toda a nossa turma. E havia a família Calisto, que se sobrepunha a todas, e era a mais famosa. E havia e há as cavacas, o Zé-Povinho e outros barros de Bordalo e as romarias de Malhoa.

Pareço um folheto turístico, maninha.

E isso não vale.

Os meus cinco anos de termas caldas acabam por agora".
[Páginas 91 e 92]
* * * * * * *

"Tu nem sonhas o que eram as Caldas da Rainha nessa altura.

Havia ainda no ar um odor a Segunda Guerra, a gente estrangeira, aliás bem apanhado depois pelo Pedro Rosa Mendes que passou quase despercebido.

Quando eu falo em burgueses, não penso na política, no verso do Cesariny, nem em nada. Penso no mundo em que vivi, obrigada Ilse.

O Ramalho Ortigão era um feudo medíocre da classe liberal e possidente. Aquilo era um externato pobre para meninos ricos, pobre no ensino, nos meios, e até nas instalações, sem laboratório, sem ginásio, sem espaços.

Mas não era eu que ia exigir.

Eu sabia lá.

Sabia disfarçar-me. Agarrado ao Machado.

Machado, Machado, tu és a minha morte, dizia o professor Rosa Bruno, de dedos espetados, com as unhas de uns a limpar as dos outros.

Combinávamos passeios até à Foz, dávamos um pulo à sua câmara escura, íamos, pé ante pé, até à rua das putas, para ver.

(Quando escrevo puta, o meu computador aponta erro, mas se lhe chamo sacana não se ofende, deve ser da origem nipónica da palavra).

O Machado era um artista. Tinha uma mão ligeira a desenhar cobóis, fugia como todo o sensível dos caldinhos (divertida maneira de dar uma palmada dura no pescoço do próximo), das futeboladas da época, da brutalidade alvar de um esgalgado, dentolas, filho de um médico de fama, Amália Rodrigues, a artista que todo o mundo dis…puta! o Machado convinha-me.

Para mim, o Machado dava-me outro mundo.

Eu devia ter tacto para que não me explorassem nos intervalos e até nas aulas. A professora de Inglês, uma Suiça alta e ditadora, não gostava de mim e não escondia. Numa festa de final de ano houve umas danças.
[…]
A mestra de Francês, que usava o cabelo puxado no alto da cabeça, formando uma alcachofra, chamava-me

Distraído.

Olhava-me de lado, séria e desprezante, mas não podia dar-me negativas. Eu sabia o Bensabat com todo o gosto.

Nunca estudei em casa, não havia lugar, silêncio ou ambiente, eu não fazia ideia de nada, mas tinha uma memória grande e ainda virgem e que hoje me atraiçoa com qualquer ansiolítico.

E houve o Português logo no início.

Alguém estava a ler alto A Cidade e as Serras, houve um tique cá dentro quando a voz alcançou algum casabre que para ali galgara. Eu liguei o casebre, o galgar dos seus sons, e fiz a frase minha. Coloquei-a depois, refeita, na redacção, cujo tema não lembro, e a professora gostou.

Criámos entendimento.

Era uma mulher despachada, não era poetisa, nem usava óculos, mas afiançou a turma que eu seria um escritor.

Não me saía a sorte, saía-me um destino.”
[Páginas 337, 338 e 339]

* * * * * * *

“Ao contrário, o meu Externatozito das Caldas não metia medo a ninguém e nele tudo era liberal, prosaico e pequeno burguês.

As instalações ocupavam dois andares dum modesto prédio de habitação com uma tabuleta cá fora, apagada, como a de um notário.

Uma pobreza tão gritante permitia entre outras coisas que os filhos dos ricos partissem as carteiras, gozassem com os professores e estes fizessem vista baixa a todos os seus desmandos. Havia um desgraçado já velho, já de si ridículo, que nos dava aulas de canto coral e era alvo da maior chacota.

A criatura, não isenta de culpa, obrigava-nos a cantarolar coisas do género.

Cavaquinha, cavaquinha
Só nas Caldas da Rainha.
Já dizia o meu avô
O doce nunca amargou.”

[Página 366]

* * * * * * *

"Despeço-me das Caldas, e dessa infância descrita nesta escrita.

Vejo-me a caminhar, com um lenço na mão, calções novos de fazenda, no adro da igreja, em dia de festa . Na fotografia pareço que limpo as lágrimas, mas deve ser do nariz, que sempre me deu chatices. Tinha o monco caído, é o mais provável.

Era nas festas de Agosto que se comiam as cavacas das Caldas.

Vinham as senhoras cavaqueiras, mulheres dos arredores da cidade, camponesas, com os seus cestos de vime e lá dentro, embrulhadas em panos brancos, as cavacas frescas a saber a limão, e a calda de açúcar. Não tinham o gosto ressequido e muito doce das casas de cavacas da cidade.

E a gente prometia à outra gente uma cavaca para a Festa, como prova de afecto, no decorrer do ano".
[Página 369]

[O Livro do Meio. Autores: Armando Silva Carvalho e Maria Velho da Costa. Caminho. Colecção O Campo da Palavra. Edição: Novembro de 2006.]

Nota: Armando Silva Carvalho foi o vencedor por unanimidade da edição de 2008 do Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores / CTT

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