Partilhando leituras

Livros sobre Caldas da Rainha, Rainha D. Leonor, Bordalo Pinheiro, caricaturas,

cerâmicas, gatos e algo mais...

sábado, 14 de março de 2009

Pré Publicação

José de Carmo Francisco enviou-me a sua crónica "O homem que morreu à espera do comboio das Caldas". Não resisti. Aqui vai a sua pré publicação. Espero que o autor me perdoe a ousadia. Era irresistível ...

ESTRADA DE MACADAME – José do Carmo Francisco
CLXXXII - «O homem que morreu à espera do comboio das Caldas»

No tempo da «estrada de macadame» eu andava muito de comboio. Vinha com a família do Montijo de barco, fazia a Rua do Ouro a pé e apanhava o comboio no Rossio às 17h 20m para chegar às Caldas (à tabela) às 19h 20m para apanhar a carreira dos Capristanos que ia à estação da CP buscar os passageiros. E não esperava um minuto porque a carreira (como os médicos) nunca espera pela gente, nós é que esperamos por ela.

Quando fui para a tropa em Abril de 1972 fazia muitas viagens porque vivia em Lisboa desde 1966 e vinha a casa no sábado mas apanhava de novo o comboio para as Caldas no domingo à tarde porque ia ainda jantar com os meus avós a Santa Catarina apanhando depois a última carreira para as Caldas às 22h 30m ainda a tempo de entrar no Quartel antes do recolher da meia noite.

Para mim a degradação do «comboio das Caldas» terá começado quando o tiraram da estação do Rossio e o levaram para o Cacém. Agora, segundo sei, parte de Meleças o que ainda é mais fora de mão. Jacinto do Prado Coelho falava sempre com muita ternura desse comboio que apanhava aos sábados à tarde no Verão depois de dar aulas a alunos estrangeiros para arredondar o fim do mês entre Lisboa e São Martinho do Porto.

Descobri uma história espantosa num livro de memórias de jornalistas. Trata-se de um depoimento de Belo Redondo que recorda o dia 14 de Dezembro de 1918, o dia em que Sidónio Pais foi assassinado na estação do Rossio. Alfredo da Silva Rei era corcunda, tinha 22 anos e era conhecido como o marreco do Casal Ventoso. Fazia fretes aos passageiros e ia entregar o dinheiro à sua mãe que morava numa viela do Casal Ventoso. De um momento para o outro e por um acaso do azar passou a ser o cadáver nº 6347 do Necrotério de Lisboa. Mas passemos às palavras de Belo Redondo: «Nessa noite o Rei apareceu na estação do Rossio para a vida habitual. Era um sábado e tudo lhe indicava que iam ser rendosas aquelas horas. O rápido do Porto e o comboio das Caldas haviam de trazer-lhe, certamente, gente que quisesse alguns fretes ou alguns despachos de bagagens. E a fiscalização devia ser nula, facto essencial para ele que não tinha a licença policial. Os jornais anunciavam que o presidente da República seguiria para o Porto às 23h 30m e a Polícia, preocupada em defender a vida de Sidónio Pais e manter a ordem na estação, daria tréguas, sem dúvida, aos moços que enxameavam a ante-gare. O corcunda exultava de contentamento, enquanto os guardas, de luvas e cordões brancos, iam organizando as alas de povo, por entre as quais havia de passar o Chefe de Estado. Às 23 horas eram já muitos os homens de todas as classes que se aglomeravam desde as escadinhas do Duque até á gare. A imprensa preparara o ambiente a favor de Sidónio Pais e o recente atentado de Belém quase que fizera esquecer os erros e os crimes da entourage do presidente. A Polícia não confiava porém muito na atmosfera de simpatia que rodeava o ditador e estabelecera uma rigorosa vigilância desde o palácio de Belém à estação. Os agentes à paisana vigiavam tudo e todos, enquanto a multidão impaciente ameaçava a todo o momento romper os cordões de guardas que a continham. Alfredo Rei, o corcunda, não percebia dessas coisas da Política mas tinha um desejo enorme de ver aquele viajante tão ansiosamente aguardado e foi, com outros, postar-se num dos frisos da janela da ante-gare». Depois foi o que já se adivinha: estava à espera do comboio das Caldas e acabou sendo o cadáver 6347 do Necrotério. A Polícia desconfiou dele e matou o pobre marreco.

2 comentários:

girassol disse...

O JCF é um nato contador de estórias. Conheço-lhe tantas!... Ele gosta de partilhá-las, ou antes, de dá-las a conhecer.

Bjinho Isabel
Um bjinho também ao "cronista", neste caso.

Anónimo disse...

Pois fez muito bem, ora essa! Aquela foto está um espanto e vem mesmo a calhar.
Bjs
a)JCF