CAVACOS DAS CALDAS II

DICIONÁRIO GRÁFICO BORDALIANO

alguns livros, cerâmicas, belos gatos e algo mais...



sábado, 27 de dezembro de 2008

330.ª Página Caldense

GENTE RISONHA
Palavras sobre a caricatura e alguns caricaturistas do nosso tempo, no primeiro serão d'arte do Salão de Humoristas do Porto
NUNO SIMÕES
[...]
Carlos Parreira, um artista, que vosselencias mal conhecem, mas cuja prosa é dum maravilhoso lavor de outomnerias, conta não sei onde, este episódio do velho Egipto, das múmias e dos túmulos.

Mandára o senhor castigar o camponez que não pagou ou dizimos; a vergasta da palmeira escevêra hieroglifos de sangue na pelle do escravo. E o bronze da revolta, sob o açoite retesou-se; na sua face erecta passou um estremeçao de dôr que, reprimido um momento, foi sorriso e logo se tranfez em pantomina.

Devia ter nascido, assim, o humor.
Mais tarde, esculptando máscaras e máscaras, mudando a dôr em esgar ou da expressão mais séria truncando a sombra cómica, o humor criou Poncio Pilatos, Voltaire e Don Quixote e o Romantismo attribui-lhe as culpas de, nas tragédias anónimas, rasgar as calças, ao heroe, no quinto acto.

Depois o humor ter-se-hia modificado, e parece que entre nós, de favor em favor, não tardou que ao humor dessem um lugar na Academia - onde sinceramente a historia ia rinchando - uma carteira entre os dignos pares, onde, pelos óculos, pela calva luzidia e pelos ditos conspicuos, foram descobril-o limpando o suor do rosto - penhor immortal da sua dedicação patriótica.

O humor teria assim tido a sua mór expressão na calva do poder legislativo...

Os bons tempos do mestre Rafael Bordalo!

[Gente Risonha. Palavras sobre a caricatura e alguns carcaturistas do nosso tempo, no primeiro serão d'arte do Salão dos Humoristas do Porto. Autor: Nuno Simões. Livraria Clássica Editora de A. M. Teixeira. Praça dos Restauradores, 17. Ano de edição: 1915.]

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