Cavacos das Caldas
CAVACOS DAS CALDAS II

DICIONÁRIO GRÁFICO BORDALIANO

alguns livros, cerâmicas, belos gatos e algo mais...



Mostrar mensagens com a etiqueta Comércio Livreiro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Comércio Livreiro. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Reportagem à Distância


Tenho por hábito quase diário uma visita ao Blogtailors, da responsabilidade dos Booktailors.

É um blog cujo conteúdo incide sobre o universo editorial, livreiro e cultural; os textos são tratados com grande actualidade, seriedade e profissionalismo.

Considero este blog uma fonte de informação profissional de consulta obrigatória, tanto mais que não me encontro propriamente onde as coisas "importantes" se passam; quer a gente queira quer não, é em Lisboa, que quase tudo vai acontecendo (pelo menos noticiado).

Qualquer notícia referente ao vasto mundo dos livros, nas suas mais variadas vertentes, é transcrita pelos autores deste blog. E os diversos "postes" são frequentemente enriquecidos com os comentários que suscitam.

Por vezes, lá surgem umas opiniões mais discordantes; mas a polémica é saudável, é, não é?

Ontem, ao fim da tarde decorreu na Casa Fernando Pessoa a apresentação do livro “Livros em abundância” da autoria de Gabriel Zaid; uns dias atrás neste blog, este livro mereceu-me uma muito ligeira reflexão.

Personalidades de fortes nomes na área do livro, foram os seus apresentadores: editores, escritores, tradutores.

A novidade está no facto de Blogtailores ter utilizado uma nova ferramenta chamada twitter, possibilitando assistir à distância e quase em tempo real à conversa a recorrer em Lisboa.

Minuto a minuto o repórter de serviço, Paulo Ferreira, ia transcrevendo as ideias chaves expressas pelos participantes, todos eles de grande experiência e profundos conhecedores do assunto em questão.

Só tomei conhecimento das frases chaves e não do discurso total; penitencio-me pelo facto, porque esta conversa era merecedora de uma deslocação a Lisboa. Mas tal não foi possível.

E lamento muito mais porque a informação que até mim chegou, deixou-me com água na boca; soube-me a pouco.

Será que foi falada a actual situação do livro em Portugal? Falou-se ou não que também por cá se publicam livros a mais? Referiu-se a situação difícil sentida por grande parte dos intervenientes do sector? Foi referida a taxa de leitores? E de compradores? E das diferenças de práticas comercias praticadas?

Voltemos ao Blogtailores: podemos ler neste blog notícias referentes às situações de profunda alteração de mercado vividas por este sector em países como, Inglaterra, França, Alemanha, Espanha, Estados Unidos, etc.

Noticias que nos digam directamente respeito; salvo erro, uma única: o lamentável fecho da Byblos.

Nada se passa por cá? Vivemos no melhor dos mundos?

Não tenho essa percepção.

Será que quando as coisas correm menos bem, fazemos como a avestruz? Lá metemos a cabeça dentro de terra e esperamos que o tempo passe e que ninguém dê por nós?

E nem sequer falamos no assunto, com receio de sermos apelidados de fracos ou falhados?

Está ou não instalada uma crise no nosso sector editorial e livreiro? Gostava de ver debatido este assunto. Ou ando eu a ver fantasmas onde eles não existem, talvez influenciada pela duplo centenário de Edgar Allan Poe?

Pelo sim, pelo não, recomendo a mim mesma que não comemore efemérides...
[A ilustração inicial deste "poste" é, como não podia deixar de ser, da autoria de Rafael Bordalo Pinheiro]

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Livros de Mais


No final do ano passado foi publicado um livro cujo título é: “Livros de mais, Ler e Publicar na Era da Abundância”.

Nunca um livro foi mais actual, com a particularidade de o título retratar uma situação que é vivida no dia a dia de qualquer livraria.

O autor, Gabriel Zaid, vive na cidade do México com a artista Basia Batorska, três gatos e dez mil livros.

Antes de ter lido o livro senti logo uma grande afinidade com o autor.

Tal, deve-se à particularidade de também viver com gatos, de estar rodeada de milhares de livros e principalmente, de me preocupar com o facto de haver livros de mais.

“Nasce um livro de trinta em trinta segundos”, informa o autor.

Certamente que cá em Portugal a média não é esta. Não sei qual é.

Claro está, que li este livro. E a sua leitura suscitou-me algumas considerações enquanto livreira, e relativamente ao mercado do livro em Portugal.

Umas das minhas preocupações é sem sombra de dúvida a quantidade desmesurada dos livros publicados entre nós.

E isto porque:

- Não chego a tomar conhecimento dos inúmeros títulos que diariamente saem para o mercado; se há editores que dão a conhecer as suas publicações, outros há, talvez devido à sua dimensão, que acreditam nos dotes adivinhadeiros dos livreiros;

- Como resultado dessa atitude, ou os seus títulos são falados nos média, e aí tornam-se conhecidos, ou então passam para o limbo dos títulos desconhecidos;

- E esta situação acentuou-se com a possibilidade de publicação “a pedido”;

- E da oferta que nos é feita, que livros escolher? Dado o facto impossível (tanto sob o ponto de vista económico, como logístico) de encomendar todos os livros que são publicados, que critério aplicar na sua selecção? O título mais comercial? O autor de nome mais sonante? O mais “intelectual”? O mais barato? O mais caro? O que oferece mais desconto? O da capa ais apelativa? Utilizar a técnica do “achamento”: Eu acho que? …

- Depois temos outro problema: os custos dos portes, que se estão a tornar incomportáveis; não esquecer que a minha realidade não está localizada em Lisboa, ou Porto, onde a entrega de livros é frequentemente feita num curto espaço de tempo e directamente pelo editor/distribuidor;

- Tempo de entrega das encomendas? Temos de tudo; desde a entrega no dia seguinte ao pedido, até … quando chegar logo se vê;

- Quando um determinado livro é sujeito a uma grande procura, por vezes certas livrarias fazem encomendas muito significativas, e pura e simplesmente deixa de haver mais livros para distribuição; mais tarde aparecem, resultante de devoluções;

- Este parágrafo é inesperado; então queixo-me que há livros de mais, e depois não tenho livros para vender? Mas é um facto; incongruências do mundo livreiro…

- Eis que os livros chegam à livraria, onde é necessário efectuar todo um trabalho de carácter administrativo: conferi-los e marcá-los, fazer uma ficha bibliográfica; todos nós sabemos que o Livreiro é por principio um individuo possuidor de uma certa cultura (será?); mas daí a saber classificar todos os livros quanto ao assunto versado, vai uma grande distância; porque não trazem uma pequena ficha técnica à semelhança da generalidade das edições estrangeiras, de onde consta a classificação do assunto?

- Agora torna-se necessário arrumá-los; torná-los visíveis aos olhos de um potencial cliente é a nossa intenção; como consegui-lo sem anular a visibilidade dos livros recebidos ontem? E isto considerando que nem todas as livrarias são da dimensão de um estádio de futebol (só que com muito menos espectadores…)

- E depois, vendê-los? Trabalhamos para um nicho de mercado, menos de 50% da população portuguesa, compra 1 livro por ano. Qual a percentagem de livros comprados dos muitos que semanalmente são postos no mercado? Alguém sabe?

- Livros há que recebo x exemplares; 3/4 meses depois continuam os mesmos x exemplares. Pergunto: falta de visibilidade? Título não atractivo? Autor desinteressante? No mínimo, uma (minha) má compra.

- Mais um elemento: a moda de publicar por quem está na moda. O facto de se ser visível, de aparecer, não quer dizer que tenha algo a escrever. Mas por aqui não quero entrar; a qualidade de muitos livros publicados – é a qualidade mensurável? com que critérios? - deixa muito a desejar.

- Será viável uma política de publicação desenfreada, em que o objectivo é a ocupação de espaço comercial, e não quebrar de modo algum a cadeia de publicação em cascata?

Estas são algumas considerações – básicas e exclusivamente profissionais – que me suscitou a leitura de “Livros de mais. Ler e Publicar na Era da Abundância”.

Uma certeza tenho: no mundo da edição estamos a viver acima das nossas possibilidades, mesmo assim, não satisfazendo as nossas necessidades, pois inúmeros títulos de obrigatória publicação, estão esgotados.

Já nem ouso referir o facto de tanto papel gasto inutilmente...

Serão estas as considerações atabalhoadas de uma livreira que não sabe o que há-de fazer a tantos livros?

Será o desabafo fracassado de quem não conseguiu publicar um único livrito?

Será que o cemitério dos livros criado por um autor muito em voga existe mesmo? Não me custa em crer.

Será o desejo íntimo de um ano editorial diferente para 2009?

É, sem dúvida.

PS: não existe qualquer semelhança entre o que aqui ficou escrito e o conteúdo do livro mencionado.