Cavacos das Caldas
CAVACOS DAS CALDAS II

DICIONÁRIO GRÁFICO BORDALIANO

alguns livros, cerâmicas, belos gatos e algo mais...



Mostrar mensagens com a etiqueta Carlos Constantino. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Carlos Constantino. Mostrar todas as mensagens

sábado, 21 de janeiro de 2012

Carlos Constantino e Bordalo Pinheiro












Passei por lá várias vezes antes de dar com o sítio.

É num cantinho sul do edifício da Expoeste, que finalmente o encontro. A quem?

Ao Carlos Constantino face a face a um Bordalo Pinheiro imponente e bem apessoado.

O Carlos está a trabalhar no barro, a ultimar um busto de Rafael. Como na grande maioria dos seus trabalhos, Carlos Constantino consegue transmitir às suas personagens um ar caricatural, sem nunca alterar os traços característicos básicos do retratado.

Confesso a minha admiração e o meu carinho pela obra do Carlos. Poucos, como ele possuem a arte de trabalhar o barro com tal mestria critica.

Estas fotografias que tive a possibilidade de tirar, não fazem jus à qualidade do seu trabalho. Seja dito, que nunca tive uma relação pacífica com a máquina fotográfica, por muito automática que ela seja. E repararam como o sol também queria espreitar o que se passava?

Mas aqui ficam algumas fotografias dos últimos retoques, com os maiores desejos que seja passada a obra definitiva.

E parabéns ao Carlos Constantino e a quem com ele trabalha. É um prazer conhecer ceramistas que dão vida ao barro, como o Carlos consegue. Tal c
omo o fez no passado, também hoje Caldas pode continuar a orgulhar-se dos seus ceramistas.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

A Visita da Troika

Foram entrando um a um.
Três dignos cavalheiros, que depois de um certo acanhamento e dos cumprimentos da praxe, se acomodaram em redor da pequena mesa da minha livraria.
Um deles trazia uma pasta na mão. Uma daquelas pastas feitas à moda antiga, de design fora de moda, manufacturada à mão, de pele fininha, já um pouco sarrafada nos cantos. De aspecto vivido, de acordo com os muitos e muitos papéis que tinha transportado. E que segredos? Nunca viremos a sabê-lo; os segredos foram feitos para assim permanecerem.
O segundo, uma figura grandiosa, a impor respeito, trazia uma pasta de artista de onde iam caindo várias folhas desenhadas a crayon.

O terceiro homem, magro e um pouco encurvado, com a aba do chapéu caída obre os olhos, carregava uma maleta, com cantos de metal.

Sentaram-se. Cruzaram as pernas, acertando com cuidado o vinco das calças. Acenderam as suas cigarrilhas.


E logo no ar ficou a pairar um odor acre-doce e uma ténue névoa como que a esconder algo. Seria uma nuvem feita de sonhos a desfazerem-se em farrapos no ar?
Olharam em redor, quais generais a passar revista às tropas; nos seus rostos de linhas geométricas nem um sorriso traspassou.
Um deles, endireitou o cache-nez na cana do nariz abriu a pasta tirou um exemplar da “Correspondência de Fradique Mendes” e deixou-o em cima da mesa.



Um outro, após acariciar a ponta do bigode, tirou do bolso do colete bordado uma caneta, e da sua pasta de artista surgiu como que por magia um exemplar da “Lusa Bombochata”. Abriu o livro e na página de rosto desenhou com traços finos e rápidos a figura de um gato enroscado nas páginas do livro. Poisou este na mesa.
O terceiro homem tossicou várias vezes, pegou num dos livros que trazia na arca, abriu-o em determinada página e leu os seguintes versos:


“Bem sei que todas as mágoas
São como as mágoas que são
Parecidas com as águas
Que continuamente vão …”

“Segue o teu destino
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
Das árvores alheias.”

Também ele colocou o seu livro em cima da mesa.
Levantaram-se e saíram da livraria. Quando já iam do outro lado da rua, viraram-se para trás e disseram-me adeus. E nesse mesmo momento a brisa acariciou-me como se de um beijo se tratasse...
Fiquei a ver as suas figuras esfumarem-se ao longe.
Da visita da Troika, restaram-me três livros…

A Troika composta por Eça, Bordalo e Pessoa criados por Constantinos.

domingo, 15 de maio de 2011

Montra do 15 de Maio



A montra da Loja 107 do dia 15 de Maio – dia festivo da cidade – foi projectada sob o signo do amarelo.

Porquê o amarelo? A cor de sol dos girassóis de Bordalo Pinheiro, numa homenagem aos ceramistas caldenses, de Rafael Bordalo Pinheiro a Belo, de Herculano Elias a Carlos Constantino, uns de entre tantos nomes ilustres que se torna praticamente impossível mencioná-los a todos.

Junto às flores amarelo-sol, um gato bizantino de Rafael. Estático olha para uma livraria desenhada no típico bordado caldense da autoria das mãos hábeis e sensíveis de Idalina Lameiras.

Logo mais um macaco Bordaliano, empréstimo de um velho e bom amigo.

Pendurado lá do alto, faz aquilo que todos os macacos sabem tão bem fazer: macaquices. Mas diga-se em abono da verdade, que por muito que ele faça, não consegue competir com as grandes macaquices de outro género que alguns dos seus primos primatas andam por aí a fazer.

O macaco de Bordalo tem o sentido do ridículo e não se presta a momices. Faz companhia a uma edição d’ «A Cerâmica de Rafael Bordalo Pinheiro».
Na segunda prateleira, um pouco mais à esquerda um gato riscado da Fábrica Belo ampara os três volumes da «História do Hospital das Caldas da Rainha até ao ano de 1656”, de Jorge de S. Paulo.

Na prateleira seguinte, surgindo de entre mais flores amarelas a edição de “Caldas da Rainha Património das Águas” em parceria com a placa cerâmica que reproduz a Porta da Sacristia da Igreja de Nossa Senhora do Pópulo, saída das mãos fortes e gentis do artista Herculano Elias.

Ao lado a edição de “Queres Bordalo”, de António Manuel António Pina, o mais recente autor da língua portuguesa galardoado com o conceituado Prémio Camões.

Recebido neste mesmo dia, um busto de Fernando Pessoa oferecido pelo Carlos Constantino; com o seu ar triste de poeta incompreendido, Fernando confere à cena um ar de seriedade.

Na prateleira de baixo, como que despontando de um canteiro florido, vários exemplares da “Rainha D. Leonor” da pena do Conde de Sabugosa.

A finalizar num ecrã roda um poema de António Gedeão, intitulado:

«Poema do Poste com Flores Amarelas»

Vieram os operários, puseram o poste de ferro na berma do passeio
E foram-se para voltar noutro dia.
O poste tinha sido pintado há pouco de verde
E quando lhe batia o sol rutilava como as escamas dos dragões.
Mesmo junto do poste, no passeio, havia uma árvore que dava flores amarelas,
E o vento fez cair algumas flores amarelas sobre o poste verde.
As pessoas que por ali passavam diziam «que chatice de poste»,
Mas o poeta sorria para as flores amarelas.»

E com esta montra, composta por livros, cerâmicas, poesia e flores, a Loja 107 homenageia a cidade e os caldenses com quem nesta data partilha 35 anos de leituras.