CAVACOS DAS CALDAS II

DICIONÁRIO GRÁFICO BORDALIANO

alguns livros, cerâmicas, belos gatos e algo mais...



domingo, 18 de dezembro de 2011

Consultando o Dicionário

Marimba - Espécie de tambor cafreal. Instrumento musical composto de lâminas de vidro ou metal, graduadas em escala, e das quais se tira o som por meio de baquetas.

Marimbar - Ganhar o jogo do marimbo. Fig. Chul. Burlar, enganar.

Marimbo - Variedade de jôgo de cartas.


PS - Quanto ao teor do comentário recebido, de identificação pouco esclarecida, informo que a transcrição foi total, tendo sido utilizado o seguinte dicionário: Dicionário Prático Ilustrado, Edição de 1931, da Livraria Chardron, Lello, Limitada, Editores. A frase final do comentário era totalmente dispensável, porque Dicionários há muitos ...


sábado, 17 de dezembro de 2011

Ironia


«Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder, da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das ciências, da admiração das grandes personagens, das mistificações da politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição deste grande universo e da adoração de mim mesmo.» P.J. Proudhon

Album das Caldas 1929



Álbum das Caldas – Ano 1 – N.º 1 – Primavera de 1929
Director e Editor: J. Fernandes dos Santos


"Muita gente conhece as Caldas da Rainha pela fama da sua cerâmica artística. As primeiras peças de que há notícia são da época da Rainha D. Leonor. Desde a fundação da vila houve sempre nela oleiros que fabricavam louça de uso e artistas de maior ou menor mérito que realizavam obras artísticas. Aparece menção de trabalhos vidrados da época de D. João V e depois até ao séc. XIX faiança caldense progredia sempre.

O mais antigo dos artistas de valor de que há memória foi Manuel Mafra (1853-1887).

Os grandes impulsos foram-lhe dados por Rafael Bordalo Pinheiro, que fez uma revolução na arte do barro e lhe deu uma orientação que se tornou célebre; por José Fuller e o sr. Visconde de Sacavém (José) e finalmente por Costa Mota (Sobrinho), o grande escultor que criou numerosos modelos duma grande correcção, excelentes vidrados, reflexos metálicos incomparáveis, cores novas nas Caldas, etc.

A influência de Costa Mota foi das mais notáveis, deixando peças de grande valor.

Os modelos da Fábrica Bordalo Pinheiro não conhecem fronteiras, encontrando-se muitos deles no Brasil, França, Espanha, etc. Ainda ultimamente no certame ibero-americano que se está realizando em Sevilha, a louça das Caldas obteve um extraordinário triunfo, causando a melhor impressão a Suas Magestades os Reis de Espanha.

Quem visitar o Museu Oceanográfico de Mónaco tem o prazer de ver trabalhos portugueses numa vitrine, e esses trabalhos, que figuram em gravura nos catálogos, são precisamente obras de Rafael Bordalo Pinheiro, representando animais marinhos.

Actualmente existem várias fábricas de faianças artísticas, que justificam sobejamente só por si, e provocam constantemente visitas às Caldas da Rainha.


A Fábrica Bordalo Pinheiro onde trabalham José Carlos dos Santos e Acelino de Carvalho, discípulos de Bordalo,, o «atelier » de Francisco Elias, outro discípulo de Rafael Bordalo, o miniaturista notável conhecido em todo o País, a fábrica da viúva de Avelino Belo, que era considerado o melhor técnico cerâmico das Caldas, discípulo também do grande caricaturista, as de Eduardo Elias, que se tem dedicado à fabricação de imagens, José Alves Cunha, Suc., José Belo, etc., são dignas de visita, encontrando-se nelas algumas obras dignas de figurar ao lado das melhores do mundo."

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Estrela em Margate - Inglaterra

Nunca me imaginei exposta em Margate, Inglaterra.

Passo a transcrever o texto explicativo da responsável pelo projecto: Carolina Rito.

"Eu e o Nelson Melo (meu companheiro e com quem tenho vindo a desenvolver um projecto que se ocupa de, utilizando as ferramentas conceptuais e plásticas das artes visuais, reflectir artisticamente sobre o que nos rodeia) estamos envolvidos num projecto a decorrer em Inglaterra no próximo mês de Novembro.

Trata-se de uma exposição de artes plásticas, para a qual fomos convidados, que tem como mote os três minutos de duração duma música de punk-rock. Estes temas musicais são geralmente caracterizados pela espontaneidade, pela ocorrência do erro, pelo força do exercício constante da prática, pela vontade e necessidade de fazer/agir/produzir, não planeando de ante-mão o resultado final.

Neste contexto e tendo em conta os assuntos que têm prendido a nossa (Nelson e eu) atenção, decidimos produzir uma peça que procurasse enfatizar e reificar a importância da prática em detrimento do seu resultado - assunto que tenho vindo a trabalhar ao nível da prática curatorial que tenho desenvolvido noutras circunstâncias. No fundo, valorizar o momento de inscrição da acção, o espaço/tempo onde a intenção acontece. Mas mais do que dar relevância a este facto, queríamos estender estes três minutos, enunciados no tema da exposição, para um tempo de vida prolongado, de duração, de persistência dessa mesma acção, para um contacto duradouro.

Interessa-nos uma acção que ao contrário de pontual, exerça um contacto prolongado com uma superfície que lhe seja hostil ou atípico e que aí, nesse encontro, sejam produzidos novos espaços, novas subjectividades e um novo espaço de cultura. Para nós, a Isabel e a 107 são esse terceiro espaço, que emergiu da sua resiliência, perseverança e paixão. Esse terceiro espaço produz uma nova cidadania, uma nova cultura, um novo espaço que marcou e marca quem aí habita e quem com ele contacta. Por estas razões, queremos, através deste trabalho, fazer-lhe uma homenagem simbólica.

O projecto passa por desenhar 160 retratos do seu rosto. 160 porque é quantos três minutos tem a duração de um dia de exposição (10h-18h). Por sua vez, cada retrato não poderá demorar mais do que três minutos a ser feito - a tal ocorrência da música punk-rock."

Um abraço longo à Carolina e ao Nelson.

Ver Aqui.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Sérgio Godinho e as 40 Ilustrações - Abysmo




João Paulo Cotrim, um amigo escritor e um Bordalino perfeito, criou uma Editora, que se chama Abysmo.
E a sua primeira edição é um álbum lindissímo intitulado: "Sérgio Godinho e as 40 Ilustrações".
Ilustrações de: José Brandão, Henrique Cayatte, Sara Maia, João Maio Pinto, Cristina Valdas, Jorge Colombo, Pedro Proença, Teresa Lima, João Fazenda, André Carilho. Belissímo.


A encomendar aqui.

Cavacos das Caldas - Nova Vida

Cavacos das Caldas, o blogue que surgiu sob a responsabilidade da Loja 107, continua, já não sob a égide da Livraria, mas como um blogue em que uma leitora e observadora social irá dando conta do que se passa em seu redor.
Quero agradecer a todos os seus comentários e continuar a merecer a companhia dos meus leitores

domingo, 4 de dezembro de 2011

Comentários a Desabafo

Recebi estes dois comentários que não consegui enviar para os comentários do post anterior, por isso tomei a liberdade de os copiar para aqui.



Loja de História Natural <http://www.blogger.com/profile/14030312348206238428> deixou um novo comentário na sua mensagem "Desabafo <http://cavacosdascaldas.blogspot.com/2011/12/desabafo.html> ":
As feiras e as lojas temporárias que abrem pela altura do Natal são concorrência desleal.
Que tenham o apoio de entidades públicas só mostra o completo desvario das mesmas que não fazem ideia do prejuízo que é para uma cidade não ter lojas abertas. (mas vão descobrir em breve).
É uma tristeza. As associações não podem querer substituir-se aos comerciantes, como fazem repetidamente. Seja qual for a causa.
E sim, e o IVA é uma boa pergunta.




Cara livreira,
Antes de mais as minhas saudações. Escrevo de Maputo, capital moçambicana. Mesmo deste recanto tenho acompanhado, com preocupação, os recentes acontecimentos no mercado livreiro português. Através dos blogues, principalmente, fico sempre informado do que por aí vai acontecendo. Sou um jovem moçambicano de 20 anos e trabalho na mais antiga livraria de Moçambique, há quase dois anos.
É lamentável que aqueles que durante décadas dedicaram-se a uma causa tão nobre estejam a ser sacrificados pelas leis de mercado estúpidas e o comando cretino das grandes editoras.
Em Moçambique, por causa da existência de pouquíssimas livrarias e por o sistema não estar consolidado, o problema não se tem colocado ao nível da influência das editoras e distribuidoras. Aqui o maior problema é mesmo dos leitores, que não existem. É verdade que com a crise aí muita gente tem que decidir entre gastar para livros ou para o pão.
É um esforço hercúleo conseguir que muitas pessoas comprem e passa sempre por estratégias de negócio bastante agressivas. O que vende aqui é, sobretudo, o livro técnico. Quanto à ficção, os compradores são quase sempre os mesmos e enquanto não se conquistar mais leitores a tendência será sempre essa. A educação formal é deficiente e por isso não consegue instigar as pessoas a ler. Em casa raramente há incentivos para se ler, primeiro porque não há livros, e segundo porque o hábito não existe. Mas há tantas questões a volta disso.
Fico por aqui, e mesmo à esta distância lamento o que se passou consigo pois sei, como livreiro, como é terrível ver um projecto ao qual nos dedicamos uma vida acabar assim.


quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Desabafo

Hoje ao abrir o meu email deparei com uma mensagem com origem na ACCCRO, a divulgar a realização de uma Feira do Livro promovida pela Associação Olha-te.

Agradeço a informação mas não posso deixar reflectir sobre a mesma.

- fec
hei a Loja 107 no final de Setembro deste ano, porque a concorrência não me permitia a realização de um volume de vendas que me permitisse fazer frente ao volume de despesas.

Sempre paguei os meus impostos, sempre cumpri os meus deveres para com os meus empregados, sempre paguei as quotas à Associação Comercial.

Vejo agora, dois meses depois de ter encerrado a livraria, a realização de uma feira do livro com o apoio da Associação Comercial, da Câmara das Caldas e da Câmara de Óbidos.

E isto depois de assistir a movimentos de pesar pelo fecho da minha Livraria. Que veracidade existirá nessas atitudes?

Não posso deixar de expressar a minha admiração pelo facto, tanto mais que tal feira é apelidada de Festa do Natal do Comércio! Qual é a entidade comercial que promove esta realização para que lhe seja dado tal nome??

Que não sirva de desculpa a finalidade da Feira; a realização de fundos para o tratamento do cancro. Ninguém contesta a necessidade de auxílio aos doentes de cancro.

O que contesto e a realização de uma feira de livros em concorrência directa a quem exerce este comércio e logo no período de natal, com o apoio da Associação Comercial e das Câmaras.


A principal responsabilidade cabe às Editoras /Distribuidoras que participam nestas acções, em concorrência directa com quem exerce o comércio livreiro no seu dia a dia.

Nada tenho contra as Associações que prestam o seu serviço cívico. Também presto voluntariado em associações de carácter humanista.

Mas não será possível a estas optarem por outras práticas que não afectem a acção comercial estabelecida? Ainda que mal pergunte: e o Iva ?

E porque é que estas feiras só são feitas com livros? Por ser mais fácil? Por ser um artigo "cultural"? Ou porque a comercialização do livro está pelas ruas da amargura, sem critério e com uma acentuada falta de deontologia comercial em que tudo é permitido para vender mais uns?

Assim não há livraria que aguente!

PS: Quero deixar bem claro que nada, mas mesmo nada me move contra a Associação Olha-te, a quem desejo um bom trabalho no âmbito da sua finalidade: ajudar os doentes com Cancro.

Sei também que este é um assunto muito sensível, em que na maior parte das vezes os livreiros referem ignorar a arranjar conflitos.

Mas a mim, ainda me dói muito o fecho da minha Livraria....

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Último Café Literário






Muito boa tarde e muito obrigada pela vossa presença.

É para mim um prazer dirigir-vos votos de boas vindas a mais este Café Literário, apesar de ser o último a realizar-se sob a égide da Livraria 107.

Sinto-me hoje como quem está à beira de fechar um livro cujas páginas foram sendo escritas ao longo de 35 anos: páginas palpitantes de aventuras muitas vezes; marcadas pelo drama aqui e acolá; enriquecidas, inesperadamente, por apontamentos de poesia; coloridas por uma ou outra ilustração... Eis como se preencheram as páginas com as quais se fez este livro imaginário, a minha obra de referência.

Escritas umas vezes sob o signo da alegria, outras do sofrimento, com determinação e alguma teimosia à mistura, mas sempre com o cuidado de manter as páginas abertas para partilha de leituras com a cidade.
Páginas onde um vasto leque de autores de língua portuguesa foi deixando marcas indeléveis, materializadas em dedicatórias escritas ao correr da pena, palavras que guardei no meu coração.

Posso dizer que o meu livro é encadernado, com inscrições a ouro na lombada e que ocupa um lugar digno na história comercial e cultural da minha cidade uma vez que ao longo do tempo me foram sendo conferidos diversos galardões em reconhecimento do meu trabalho e que exibo com muita honra.

Digo-o, sem falsas modéstias e com muito orgulho.

Mas...todos os livros têm um fim e hoje é o dia de voltar a última página.

Antes de o fazer, deixem-me expressar o meu profundo agradecimento a todos os que comigo partilharam a escrita e a leitura deste livro, que tem o nome de 107.

Como nas últimas páginas de um grande livro fruto de trabalho aturado ao longo de anos, aqui se registam os agradecimentos a todos os que tornaram possível esta obra.

- A começar, aos leitores que ao longo de todos estes anos, tornaram possível a existência da Livraria, ao ali fazerem as suas compras;

- Depois, ao Café Pópulos que ao longo de tantos anos, simpaticamente, me acolheu e aos meus convidados;

- E agora ao Centro Cultural e de Congressos, ao seu director e a todos os seus colaboradores por, ao receberem-me, me terem feito sentir esta casa como um pouco minha também;

- Não posso deixar de referir o meu sócio, que por coincidências da vida, é também meu irmão, que sempre apoiou incondicionalmente todas as minhas acções, mesmo quando não foram as mais acertadas.

- Por fim, o meu profundo agradecimento ao Prof. António Barreto que, mesmo tendo conhecimento de que a livraria iria encerrar, acedeu ao meu convite para redigir o posfácio deste livro imaginário.

Em nome da Livraria 107, sinto-me privilegiada por as derradeiras palavras inscritas na sua história, serem as suas, Senhor Professor.

Antes de terminar, permitam-me que partilhe convosco um poema da autoria de Pedro Mexia, em que o poeta cruza os seus sentimentos com os livros.





Nas estantes os livros ficam

(até se dispersarem ou desfazerem-se)

enquanto tudo

passa. O pó acumula-se

e depois de limpo

torna a acumular-se

no cimo das lombadas.

Quando a cidade está suja

(obras, carros, poeiras)

o pó é mais negro e por vezes

espesso. Os livros ficam,

valem mais que tudo,

mas apesar do amor

(amor das coisas mudas

que sussurram)

e do cuidado doméstico

fica sempre, em baixo,

do lado oposto à lombada,

uma pequena marca negra

do pó nas páginas.

A marca faz parte dos livros.

Estão marcados. Nós também.



Muito Obrigada.



Café Literário - Convidado Professor António Barreto
Fotografias de Margarida Araújo

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Último Café Literário Loja 107

Dia 19 de Novembro - Sábado - 17,30 Horas

Centro Cultural e de Congressos das Caldas da Rainha

CAFÉ LITERÁRIO

Convidado

Professor António Barreto




António Barreto nasceu no Porto a 30 de Outubro de 1942. Viveu em Vila Real até terminar o Liceu. Frequentou a Faculdade de Direito de Coimbra. Viveu na Suíça, como exilado político, de 1963 a 1974. Licenciou-se em Sociologia em 1968. Trabalhou na Universidade de Genebra e no Instituto de Pesquisas das Nações Unidas para o Desenvolvimento Social. Regressou a Portugal em 1974. Foi professor nas Faculdades de Ciências Sociais e Humanas e de Direito da Universidade Nova de Lisboa, investigador na Universidade Católica e no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa até 2008. Doutorou-se em Sociologia, em 1985, na Universidade de Genebra. Foi deputado à Assembleia Constituinte e à Assembleia da República, assim como secretário de Estado do Comércio Externo, ministro do Comércio e Turismo e ministro da Agricultura e Pescas. Presidente da Comissão organizadora das comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades, por nomeação do Presidente da República (2009 a 2011). Prémio Montaigne de 2004. Sócio da Academia das Ciências desde 2008. Presidente do Conselho de Administração da Fundação Francisco Manuel dos Santos desde 2009. Colunista do jornal Público desde 1991. Publicou, entre outros, Anatomia de uma Revolução, Tempo de Mudança, Sem Emenda, Tempo de Incerteza, A Situação Social em Portugal, 1960-1999, Novos retratos do meu país e Anos Difíceis. Coordenador (com Maria Filomena Mónica) do Dicionário de História de Portugal, 1925/1974. Co-autor de Portugal, Um Retrato Social (série de televisão), Nós e a Televisão, A Televisão e o poder (documentários) e Horas do Douro (longa metragem, com Joana Pontes). Exposição das suas fotografias em Lisboa, 2010. Publicou, em 2010, um álbum “António Barreto – fotografias 1967/2010”.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Congresso Livro - Açores - Ilha Terceira












A começar, permitam-me que exprima o meu sentido agradecimento pelo prémio que acaba de me ser atribuído pela Associação Portuguesa de Editores e Livreiros.

Atrevo-me agora a pedir alguns momentos da vossa atenção e a vossa benevolência para poder partilhar convosco um pouco do meu actual sentir.

Durante mais de 35 anos fui responsável por uma pequena livraria nas Caldas da Rainha e através dela pude concretizar, com êxito, um projecto que tinha por base um gosto de sempre, o profundo amor pelos livros.

No último dia do mês de Setembro do ano em curso, a Loja 107 encerrou as suas portas.

Não porque eu o tenha desejado, mas porque a isso fui obrigada por força de vários factores condicionantes desta especifica actividade e altamente prejudiciais ao normal funcionamento de uma livraria com as características da minha.

E não me estou a referir às tecnologias por muitos apontadas como um desses factores nem às mais modernas técnicas de marketing que pretendem fazer passar a mensagem que todos os livros agora publicados são, para além de grandes êxitos editoriais, obras que todos ansiavam por ler.

Há a crise, claro que há, o que num país como o nosso faz com que o livro seja colocado, obrigatoriamente, numa posição secundária perante as necessidades básicas do dia a dia de cada família.

Mas o que afectou decisivamente a actividade comercial da minha livraria foi, sem dúvida alguma, a brutal concorrência escudada no total desregulamento da comercialização do livro.

As livrarias não podem concorrer com as condições de oferta praticadas pelas grandes cadeias de distribuição, pelos grupos livreiros, pelas vendas on-line, nos Correios, nas feiras e feirinhas, em bombas de gasolina, pelas vendas levadas a cabo pelas próprias editoras, etc.

E apesar dos preços por todos estes intervenientes praticados, uma certeza eu tenho: ninguém, nenhuma destas entidades, vende os livros com prejuízo.

Este tipo de concorrência e de comercialização é fatal para uma pequena livraria.

Mas que digo eu, Senhores Editores e Distribuidores? Os senhores sabem bem o que se passa. Não estou a dar-vos novidade nenhuma. E já agora, que vem a talhe de foice: ainda está em vigor uma certa Lei do Preço Fixo, que há uns anos atrás tanta celeuma levantou?

Acabam de atribuir este prémio a alguém que se viu forçada a fechar a sua livraria mas que nunca deixará de se considerar uma livreira.

Que significado se poderá atribuir a este facto peculiar e aparentemente contraditório? Se algum houver a retirar daqui, que seja a ideia de que não podemos encarar como normal, ou como inevitável, o sistemático desaparecimento das pequenas livrarias que são, na maior parte dos casos, também agentes culturais locais.

Antes de terminar, permitam-me ainda um pouco de futurologia: o que se vislumbra no mercado livreiro deste país? Três ou quatro grupos editoriais a negociarem com três ou quatro grupos livreiros. Como consumidora, não me seduz esta visão que prenuncia um formato comercial demasiadamente uniformizado e pouco estimulante numa perspectiva cultural.

Para o tempo que vos roubei e para o que talvez possa ser tido como uma quebra no protocolo, peço uma vez mais a vossa compreensão.

Mas se não dissesse o que acabei de vos dizer, não me sentiria merecedora do prémio de Livreira com que acabaram de me distinguir.

E se me permitem, agora mesmo a finalizar e plagiando o Professor Carlos Fiolhais, direi, quando me perguntarem o que fiz pelo meu País e pela minha Terra, direi com muito orgulho, que divulguei livros e partilhei leituras.

Muito obrigada.

(palavras de agradecimento lidas na Cerimónia da Entrega de Prémios no Congresso do Livro realizado nos Açores)

quarta-feira, 26 de outubro de 2011