CAVACOS DAS CALDAS II

DICIONÁRIO GRÁFICO BORDALIANO

alguns livros, cerâmicas, belos gatos e algo mais...



quinta-feira, 16 de setembro de 2010

A visita do naturalista

Notas de uma Viagem a Portugal e através de França e Espanha
Heinrich Friedrich Link
H.F. Link

"No meio da terra, por cima das fontes quentes, encontra-se o belo e espaçoso balneário, edificado no último reinado. Mesmo ao lado está um hospital para doentes próprios. Para além da fonte de água potável há ainda outras três que fornecem a água a quatro banhos. O banho para os homens tem o comprimento de 36 pés, a largura de nove pés e dois pés e oito polegadas de profundidade, o chão está coberto por argila branca e areia lavada. Uma pessoa despe-se por detrás de um cortinado, veste as roupas de banho e senta-se então no chão, com a água a dar pelo pescoço. Muitas vezes estão 12 pessoas de uma vez no banho. Embora a água esteja permanentemente a correr, a verdade é que apesar de tudo é desagradável ter de tomar banho acompanhado e ainda mais desagradável se torna quando se apanha a água por último, água essa que já lavou os outros. É igualmente desagradável que seja permitida a entrada a estranhos. Não se paga nada pelo banho, apenas se dá no fim uma gorjeta aos criados. Os pobres e as pessoas de condição mais baixa só se podem banhar por volta do meio dia, depois de os outros terem terminado. Os restantes banhos, também os apropriados para mulheres, estão dispostos de uma forma semelhante, só que a água nos banhos dos homens é a mais quente e a mais forte, uma vez que tem 92 e 93º Fahrenheit (entre 26 e 27º Réaumur. A água de todas as fontes conflui e acciona um moinho perto do balneário.

Assim que se entra no balneário chega-se a um grande vestíbulo que serve para passear depois do banho e que geralmente está cheio de gente que com muita impetuosidade anda de um lado para o outro. Aqui encontra-se também uma farmácia e como pano de fundo a fonte de água mineral, cuja temperatura é de 91º Fahrenheit."


[Notas de uma viagem a Portugal através de França e Espanha. Autor: Heinrich Friedrich Link. Biblioteca Nacional. Colecção. Textos BN.Lisboa. 2005]

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Manguito

VIDRO O OUTRO LADO DA TERRA
Ferreira da Silva
Centenário da Morte de Rafael Bordalo Pinheiro
Catálogo de Exposição
2006
Bordalo e o gesto que o imortalizou
Acrílico sobre madeira
150x150 cms, 2006
Pintura realizada a partir de foto editada em Rafael Bordalo Pinheiro
- Fotobiografia ,
(Assírio & Alvim) de João Paulo Cotrim

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

A Luso Bambochata



A LUSA BAMBOCHATA

“Uns não vão… porque são ricos,
Outros, não … porque são nobres,
E os albardados burricos …
São sempre os filhos dos pobres!
A classe que lida e sua,
Largando a enxada, a charrua,
Vai as tarimbas enchendo …
E além, por entre penedos,
Campos, vinhas, olivedos,
Vão secando e vão morrendo!
………………………………
……………………………..
E enquanto o pais inteiro,
Morre assim ao desalento …
O pão do nosso sustento
Vem-nos lá do estrangeiro!”


A Luso Bambochata, Poema triste em verso alegre.
Dedicado a todos os filoxeras políticos da Parvónia
Autor: Joannico C. Mila
Pseudónimo de João Pereira da Costa Lima (1836-1897)
Ilustrações de Rafael Bordalo Pinheiro
Editores Tavares Cardoso & Irmão – Largo de Camões, 6 – Lisboa
1885

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

The Most Interesting Parts


Hints to Travelers in Portugal, in Seach of the Most Beautiful and the Grand: With an Itinerary of some of the Most Interesting Parts of the Remarkable Country (1852)

John Murray


"Lisbon to Torres Vedras direct and the Caldas da Rainha


Lumiar ...................................................1 League
Loures ....................................................1
Povoa da Gallega ...................................... 2
Enchara dos Cavalleiros .............................. 1
Torres .................................................... 2
Ramalhal ................................................. 1
Roliça ..................................................... 3
Obidos .................................................... 1
Caldas da Rainha ....................................... 1
_____________________________________ 13 Leagues"

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Caldas da Rainha


Terras de Portugal
António Montês


"Antigo poiso de reis, que ali tinham o seu palácio, passaram pelas Caldas da Rainha quase todos que, fiéis à tradição, se banharam nas suas águas de milagre.

Banham-se anualmente nas águas pelo Santo António, São João e São Pedro, muitos milhares de pessoas, que de terras distantes ali vão buscar alívios para os seus achaques. É o tradicional “Banho Santo”, a que o Ribatejo acorre com entusiasmo, em caravanas enormes, em busca de lenitivo para dores reumáticas, que quase milagrosamente desaparecem, nas piscinas seculares do hospital."


[António Montês. Terras de Portugal. 1.ª Série. 1939.]

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

A Soberana da Misericórdia

JOÃO AGUIAR
Super Portugueses

"Rainha D. Leonor (1485 – 1525)
A soberana da Misericórdia"

“Não foi propriamente uma santa; porém não há dúvida de que Portugal deve muito a esta rainha, que criou as Misericórdias e o primeiro hospital termal do mundo.

[…] o que tornou esta rainha credora da nossa admiração – e da nossa gratidão – foram as iniciativas que tomou no campo da assistência social. A primeira dessas grandes iniciativas – referimo-nos somente às acções de grande vulto – foi a criação em 1485, do Hospital das Caldas, acção que teve, de resto, o apoio de D. João II: era o primeiro grande hospital português, com uma centena de camas, consulta médica obrigatória, farmácia e enfermagem especializada. Era, também, o primeiro hospital termal em todo o mundo. E ainda hoje existe, apesar das sucessivas «políticas da saúde» com que vários governos nos afligem.”
[…]
Quanto à cultura, a rainha exerceu o seu mecenato durante os quatros reinados em que viveu, protegendo e encomendado obras a vários artistas; mas é impossível não salientar o apoio que deu ao grande Gil Vicente, a quem encomendou vários autos e que ela protegeu de ódios e intrigas causados pela crítica impiedosa que ele fazia aos costumes da corte.” [Página 77/78 e 79]

[João Aguiar. Super portugueses – Biografias Históricas – As personalidades que ajudaram a construir Portugal. Bertrand Editora. Lisboa, 2009]

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Que Canícula!

Paródia - nº. 133 - 18 de Agosto de 1905
- Que calôr! O' menina vê lá quanto marca o termómetro.
- Trinta e dois graus...
- Acima ou abaixo de zero?

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Descobrir as Diferenças


A Paródia - nº. 129 - 2 de Julho de 1902 - 2.º Ano
Convénio
Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro
[A dívida externa dá a extrema unção ao país]

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Rafael Bordalo em Braga


"No século XIX é longa e difícil a distância que separa Lisboa de Braga, mas no imaginário dos lisboetas a cidade minhota ocupa um cantinho muito próprio. À capital chegam as notícias de tradições ancestrais escrupulosamente cumpridas, os ecos de um clero conservador, sendo que o simples nome da antiga Bracara Augusta, depois cidade dos Arcebispos, é inevitavelmente associado à imagem de igrejas e capelas, de conventos e seminários, de confrarias e irmandades.

Estas representações tão vinculadamente religiosas não poderiam deixar de aguçar a curiosidade de Rafael Bordalo, alfacinha, republicano e maçon e de espicaçar a sua forte veia anticlerical."

Título: Crónicas Bracarenses de Rafael Bordalo Pinheiro

Autor: Maria Virgílio Cambraia Lopes

Editor: Fundação Bracara Augusta, Braga

Data de Edição: Braga, Novembro de 2009

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

De Livros e Editores - António Lobo Antunes


"A cabeça de um escritor é um sítio inabitável, cheio de sombras negras que se devoram umas às outras, remorsos, fantasmas, dores, insignificâncias em que não reparamos e ele repara, sensações, luzes, criaturas sem nexo. Usam o papel para ordenar este caos, vertebrar o desespero, dar ao ilógico uma coerência lógica e mostrar o nosso retrato autêntico em cacos de espelho, fundos de poço trémulos, superfícies convexas em que temos de emagrecer por nossa conta. Não se pode estender a mão a quem lê, tem de se caminhar sozinho num nevoeiro aparente em que, a pouco e pouco, as coisas se arrumam nos seus lugares. Em nenhum bom livro há personagens e história: quando muito aparência de personagens e história, usadas para tornar mais clara a vertigem do que somos. Tudo se passa no interior do interior e portanto não devia haver cursos de escrita criativa (um paradoxo de termos) mas de leitura criativa. Conheço menos bons escritores do que bons leitores, um bom leitor é uma espécie muito rara. Um autor do século dezanove dedicava os seus trabalhos aos felizes poucos,expressão roubada a Shakespeare (we few, we happy few, we band of brothers) capazes de nadarem ao seu lado em águas muito escuras e de regressarem à tona de mãos cheias.
Um livro é mais uma orelha que uma voz onde, no fim de contas, é o bom leitor quem conversa.O livro escuta. As páginas são ouvidos pacientes que nos guiam através da liberdade do silêncio, onde as nossas frases se reflectem e regressam com um sentido novo. O bom leitor só recebe na medida em que dá e a qualidade da obra depende desta troca constante, do fluxo e refluxo das emoções partilhadas. Temos de ser um agente activo do livro, fazê-lo nosso até que se torne, como queria Rilke de quem não sou admirador, excepto em raras passagens das Elegias, sangue, olhar e gesto. Se não for assim é uma comédia de enganos, um passatempo inócuo como quase tudo o que em Portugal se impinge, porque a maior parte dos editores ou são ignorantes ou são vigaristas, oferecendo ao público pacotilha impressa: um bom editor, tal como um bom leitor, é mais raro que um bom livro. Uma editora comercialmente bem sucedida é má, ou então tem de fazer compromissos. A casa alemã onde estou, por exemplo, possui um catálogo honesto, dividido em duas partes, literatura e best-seller. O argumento temos de pôr as pessoas a ler é idiota: o que temos é de ensinar; pessoas a ler. Até Lenine compreendia isto, ao afirmar que a arte não tem de descer ao povo, é o povo que tem se subir à arte. Claro que não é apenas um problema português, é um problema universal. Pasmo com as listas dos tops de ficção, dizem elas, quando a ficção não existe a não ser nas obras rasteiras. Se me dissessem que escrevia ficção sentia-me insultado: ficção que tolice, é o mundo inteiro que a gente mete entre as capas de um livro. Vende menos? Decerto mas há-de vender sempre. Se tivermos lado a lado, à nossa frente, Camões e o jornal, a tendência imediata é pegar no jornal, mas o jornal desaparecerá amanhã e Camões fica. Chamo jornalismo, explicava Gide, ao que é menos interessante amanhã do que hoje. E depois a Arte não é um desporto de competição: o editor que ponha numa cinta, por exemplo cem mil exemplares vendidos, ou julga falar de sabonetes ou não é um editor. Se o livro for bom há-de vender muito mais do que isso: quanto terá vendido Ovídio até hoje? É apenas uma questão de tempo, porque os bons leitores existirão sempre, ainda que poucos. O que me aborrece na Arte são os comerciantes que giram em volta dela, sem lhe tocar, porque tiram o seu alimento do efémero. Faz pouco tempo comecei uma biblioteca na empresa onde estou. Tolstoi foi o primeiro: ao receber o livro impresso reparei que as últimas três páginas eram propaganda a lixo. Como se pode, no fim de um livro de Tolstoi, fazer aquilo? Desonestidade? Ignorância? Não faço ideia de quem é o responsável mas devia ter sido fuzilado no berço: Tolstoi de mistura com livros de cozinha e ficções. Recomecei a colecção: até agora não repetiram a indignidade. Pergunta: - Como vão os livros da biblioteca?
Resposta:
- Pingam
e ainda bem que pingam. Se vendessem às grosas é que ficava alarmado. Os bons livros são para pingar eternidade fora: o Mondego começa gota a gota; a água suja basta virar o balde e encharca-nos. A água do balde acaba logo. O Mondego não tem princípio nem fim.
- Pingam.
e que maravilha pingarem. À força de pingarem hão-de engrossar irrestivelmente, enquanto os baldes se enferrujam, amolgados, num canto do jardim.
e o que interesse
(volto a Gide)
o amanhã? A gente vive no hoje, pá, o Horácio que se dane. Que se dane a Coroa, o que vale são as coroas e essas já cá cantam. O problema é que, se alguma nova editora aborda a minha agência, não começa por falar em dinheiro: fala nos nomes do catálogo. Todos eles pingam. Mas dão prestígio a uma Casa. Respeito demasiado o meu trabalho para o deixar à venda numa loja de trezentos.”

Visão, 19 de Agosto de 2010