CAVACOS DAS CALDAS II

DICIONÁRIO GRÁFICO BORDALIANO

alguns livros, cerâmicas, belos gatos e algo mais...



domingo, 17 de junho de 2007

66.ª Página Caldense





Concurso Hípico nas Caldas da Rainha




"O concurso hípico realizado este ano nas Caldas da Rainha, por iniciativa do sr. conde de Font'Alva, a quem o desenvolvimento do sport hípico no pais deve os mais relevantes e persistentes incentivos, constituiu uma prova interessantíssima, e, além d'isso, uma festa elegante de primeira ordem. Desnecessária se torna descrever aqui o que foi esse magnifico concurso, concurso de que os jornais deram larga noticia, e como testemunho da entusiasmo que a sua realização despertou, não só na colónia balnear, como na população local, basta referir a grande manifestação de simpatia feita ao ilustre titular e distintissimo sporstman, por ocasião do seu recente regresso à capital.
E desde já ficou assente a realização, na época balnear do ano próximo, de um outro concurso hípico, ainda mais completo, e no qual serão convidados a tomar parte elementos nacionais e estrangeiros. "

[Ilustração Portuguesa Nr.º 85, 7 de Outubro de 1907, Página não numerada. Clichés de Francisco Matias]

Os Gatos de Amarelhe

OA GATOS DE AMARELHE

[Ilustração Portuguesa, II Série, N.º 770 - 22 de Novembro de 1920. Capa ilustrada por Amarelhe]

65.ª Página Caldense

CÃO COMO NÓS
MANUEL ALEGRE

"Cão como tu, dizia ela. Mas a verdade é que o cão, quando ela era bebé, a protegia contra tudo e contra todos, mesmo contra a minha mãe. Foi uma noite, num velho hotel das Caldas. Ela estava a dormir num quarto ao lado de minha mãe. [Pág. 29]

Então começou a caçar sozinho. Sobretudo na Foz do Arelho. De quando em quando aparecia com um coelho ou uma perdiz na boca, todo contento a dar ao rabo. [Pág. 40]

Não entres assim comigo nesta água escura, estamos na Foz do Arelho e isto não é um verso traduzido do irlandês, menos ainda um título de um romance, sequer uma paráfrase, é o mar da Foz, o Atlântico em estado puro, o mar mais bravo e mais íntimo que conhecemos, o nosso mar, há ondas de dois ou três metros, aquele corveiro está com ceerteza cheio de robalos, não entres assim comigo nesta água escura." [Pág. 63]

[Cão Como Nós, Novela. Manuel Alegre. Editor: Publicações Dom Quixote. 1.ª Edição, Setembro de 2002. 117 páginas numeradas + capas. ISBN 972-20-2301-2]

64.ª Página Caldense

ILUSTRAÇÃO MODERNA

1.º ANO - PORTO - DEZEMBRO DE 1926 - NÚMERO 8

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RAFAEL BORDALO PINHEIRO
A VILA DAS CALDAS DA RAINHA VAI HOMENAGEAR O GRANDE ARTISTA

"A Louça das Caldas é conhecida em todo o país, e lamentável será que porventura o não seja também no estrangeiro. Raras vezes, na verdade, e em qualquer outra parte do mundo, o génio do homem conseguiu arrancar a simples moldagem do barro tão surpreendentes formas, tão peregrinas materializações de Arte e de Beleza.

Rafael Bordalo Pinheiro não brilhou apenas pela cintilância, nervosismo e vivacidade do seu prodigioso lápis, demolindo nulidades emproadas, flagelando vaidades estultas, desarticulando bonecos de barro humano antes de modelar as suas deliciosas figuras de faiança, castigando, enfim, os costumes com riso e com humor; foi também um decorador opulento de tons e de fantasia, e fundou, junto do belo parque das Caldas da Rainha, a fábrica de louça a que ele mesmo deu vida e renome, criando um tipo de cerâmica regional que se pode considerar a mais original, variada e interessante das cerâmicas portuguesas.

Justamente, pois, a vila das Caldas da Rainha, continuado brilhante da obra do Mestre - e já berço de artistas desde a sua fundação pela simpática e bondosa rainha D. Leonor de Lencastre - vai levantar em Janeiro próximo, por esforços da comissão de Iniciativa local, um monumento ao artista que é uma das maiores glórias da nossa terra.

O grande escultor Teixeira Lopes modelou admiravelmente o busto de Rafael, o qual assentará num pedestal delineado por outro ilustre artista, o professor José Luís Monteiro, tendo sido o bronze fundido pela Empresa Artística "Teixeira Lopes", de Vila Nova de Gaia. E assim, ao mesmo tempo que paga uma dívida de gratidão, a vila das Caldas da Rainha poderá orgulhar-se de oferecer à curiosidade dos visitantes uma genuína obra de arte, bem digna do vulto notável cuja memória pretende perpetuar, e não perpetuada se encontra já em trabalhos encantadores, como essa maravilhosa e delicadíssima jarra manuelina, que hoje se admira no Museu do Campo Grande, em Lisboa."

[Pág 179 - artigo não assinado]

[Ilustração Portuguesa, publicação mensal. Editor - Director Marques Abreu. Imprensa das Oficinas de Fotografia de Marques Abreu, Avenida Rodrigues de Freitas, 310, Porto. Capa: cliché fotográfico de Camilo José de Macedo : Rafael Bordalo Pinheiro - Escultura de Teixeira Lopes.]

sexta-feira, 15 de junho de 2007

63.ª Página Caldense

FORA DA TERRA
JÚLIO CÉSAR MACHADO e PINHEIRO CHAGAS

Caldas da Rainha * Festas da Nazaré * Leiria e Marinha Grande * Cintra * Bussaco * Bom Sucesso * Paço d''Arcos * Espinho
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1
A história da vila e dos banhos - O charco da Copa e a rainha D. Leonor - A paralisia de D. João V - A água no século XIX - Um dia nas Caldas - O mercado - O estabelecimento - A alameda - A mata - A noite no club - Portugueses e espanhóis, o cotillon e o sr. Costa Pinto - Fala-se em Páris e no snr. Viale a propósito de várias cousas. [Pág. 1 a 13]

"Já que um jornalista não pode viajar como um simples mortal, e tem de dizer aos seus leitores habituais, o que viu e o que vê, arrancar-me-ei ao doce fare niente que tenho estado desfrutando e contarei aos meus leitores o modo como se vive n'esta bonita vila das Caldas da Rainha, onde estou residindo há mais de quinze dias.

A história das Caldas da Rainha [...]

Ah! se estas localidades servissem unicamente para o fim a que destinam, que aborrecido aspecto teriam! Não haveria nas Caldas senão coxos arrastando-se penosamente, e uma turba de gente pálida tomando melancolicamente as águas sulfúreas. Assim pelo contrário o aspecto é risonho e alegre.

Desperta um banhista pela manhã, atravessa a praça onde se acumulam ao domingo inúmeros camponeses que trazem a óptima fruta dos coutos de Alcobaça, e que, encostados aos seus longos varapaus, conversam uns com os outros n'aquele tom de voz arrastado e lento, peculiar das populações ao sul do Mondego.[...]

Descendo-se por uma rua mal calçada, vai-se ter ao excelente estabelecimento de banhos, edifício elegante e simples, construído pelo hábil arquitecto Manuel da Maia, segundo diz o snr. Pinho Leal no seu noticiosissimo Portugal Antigo e Moderno.

Uns tomam as águas, outros tomam os banhos ou na vasta piscina, onde borbulha a água azulada da nascente sulfurea, ou nas tinas de mármore dos quartos particulares.[...]

Almoça-se, e depois é de rigor um passeio à alameda da Copa, que fica defronte do hospital. O seu aspecto exterior é delicioso. O arco alto, que tem o seu talento ou quanto de monumental, que lhe serve de entrada, enche-se completamente com a folhagem dos arvoredos, como se enche de azul celeste, no dizer poético de Victor Hugo, a curva dourada pelo poente do arco da Estrela em Paris. [...]

Ai teem os leitores um breve resumo da vida das Caldas da Rainha em pleno mês de Agosto. [...]

[Livraria Internacional de Ernesto Chardron (Porto) / Eugénio Chardron (Braga). Data de Edição 1878. 223 páginas numeradas + capas + páginas V a LII de prefácio assinado por Júlio César Machado. Dimensão: 11,00 x 17,50 cms (exemplar aparado?); possuo outra edição com as mesmas características mas com a seguinte dimensão: 12,30 x 18,80 cms.]

quinta-feira, 14 de junho de 2007

62.ª Página Caldense

ORFEON CALDENSE


"1. - Sr. Carlos Silva, ensaiador e regente do orfeon. 2. - O sr. Alfredo Pinto (Sacavém), que fez a conferência O Sentimento musical do povo português através da sua história, precedendo a apresentação do orfeon. 3. - O orfeon constituído na sua maioria, por empregados no comércio. estreou-se no teatro Pinheiro Chagas em 31 de Julho último. - (Cliché do sr. Armando Silva)"


[Ilustração Portuguesa, Edição semanal do jornal O Século, II Série, n.º 549, 28 de Agosto de 1916. Pág. 179]

quarta-feira, 13 de junho de 2007

61.ª Página Caldense

GUIA TURISTICO CALDAS DA RAINHA

"Agora que nos visita, o que agradecemos, desejamos que de facto conheça as CALDAS DA RAINHA, Rainha das Termas de Portugal, onde o CAMPO e a PRAIA se congregam com o mais português dos espectáculos regionais: os nossos vinculados costumes.

Esperamos que a nossa presença fique bem marcada na saudade dos que partem. Desejamos que volte e esperamos por si.

Obrigada."

[Folheto com 12 páginas não numeradas + capas. Dimensão de 21,50 com x 23 cms. Edição da Comissão Municipal de Turismo das Caldas da Rainha. Sem data.]

Esta página é dedicada ao meu visitante/leitor Luis Eme, viajante de mil mapas.

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Comentários:

Luis Eme disse...
Sinto-me no minimo lisongeado com esta dedicatória...Obrigado Isabel.
14 de Junho de 2007 10:52

60.ª Página Caldense

CATALOGO DO MUSEU RAFAEL BORDALO PINHEIRO
CRUZ MAGALHÃES


[Tipografia Universal, Rua do Diário de Notícias, 78 - Lisboa. Data de Edição: 1919. 54 páginas numeradas + capas. Tiragem de 250 exemplares. Dimensão: 11,60 x 18,20 cms. "Produto liquido de venda para o Asilo de S. João".]

terça-feira, 12 de junho de 2007

Anexo à Página 45.ª

A tabela de preços dos tratamentos dada a conhecer na página 45.ª, suscitou uma pergunta de uma habitual leitora destas Páginas Caldenses.

Maria: não sei qual a diferença entre banhos de 1.ª classe e banhos de 2ª. classe. Vou investigar.

Entretanto, dado o interesse demonstrado, passo a transcrever uma parte do texto integrado no capítulo referente à Hospitalização [Páginas 18]:

"As condições para a admissão ao internato são as seguintes:

Atestado de pobreza passada pelo pároco, e certificado de doença pelo médico, com o visto do administrador do concelho; e além d'isso certificado do escrivão de fazenda de se pagar contribuição inferior a 2$5000 réis.

Podem também receber tratamento gratuito doentes não internados no hospital, para o que bastam os atestados de pobreza e de doença, devidamente autenticados.

Além os doentes pobres, que são tratados e alimentados gratuitamente, também o hospital recebe pensionistas nas seguintes condições:

Pagam 400 réis diários, devendo apresentar para serem admitidos, certificados do escrivão de fazenda em que provem pagar contribuições, prediais ou industriais, compreendidas entre 2$500 réis 5$000.

Estes doentes teem direito ao sustento e a todas as aplicações terapêuticas de que necessitam.

Pagam 3$000 réis diários as pessoas tributadas entre 5$000 réis e 10$000 réis, tendo direito ao sustento, mas pagando também as aplicações, com o desconto de 50% sobre os preços estabelecidos, e que adiante vão indicados.

Pagam 300 réis diários as pessoas tributadas em mais de 10$000 réis tendo direito ao sustento, mas pagando o tratamento pelos preços da tabela."



SALA DAS INALAÇÕES - SENHORAS

12 de Junho

Efeméride

Em 1875, neste dia, surge publicada nas páginas de um jornal intitulado A Lanterna Mágica, uma singular figura que ainda hoje nos é familiar: o Zé Povinho.

No canto inferior esquerdo, uma assinatura: Rafael Bordalo Pinheiro.

Como nasce este , que se torna figura conhecida, amada por uns, detestada por outros, mas nunca ignorada?

Tendo em atenção a data de publicação, véspera de 13 de Junho - dia de Santo António, santo bem-querido e casamenteiro - a cena passa-se num altar dedicado ao santo.

Em lugar de destaque, no cimo do altar (ou não fosse ele todo-poderoso) Fontes Pereira de Melo tendo ao colo um menino rei D. Luís I.

À esquerda, uma pouco amigável personagem, responsável das polícias, empunha um chicote disciplinador.

À nossa direita e em primeiro plano, um ministro da Fazenda orientador dos dinheiros nacionais, a pedir esmola a um homem incrédulo. Este, encavacado, coçando a cabeça num gesto incrédulo, é o , que estende duas moedas tiradas de um bolso vazio sem fundo.

Em cenário, as moscas-políticos, que voam baixinho importunando tudo e todos.

Parabéns , completas hoje 132 anos!


Saudade

Era um dia de chuva e de céu pesado. Entra, sentindo-se pouco à vontade; coisa passageira...

Desde logo o computador não tem segredos para ele. Quente e aconchegador, torna-se de banal utilização.

A partir do momento em que gera uma certa empatia com o meio, passam a ser vários os seus locais de eleição.

Nos dias de sol, a montra. Sempre acarinhado por um ou dois romances de teor histórico; corre pelos becos e vielas do Último Cabalista de Lisboa; entranha-se nas páginas de Marguerite Yourcenar.

Nos dias de algum vento, aconchega-se ao Velho e o Mar, levado à bolina pelas palavras de Steinbeck.

Em momentos mais nostálgicos, procura na poesia o consolo para as suas tristezas. Folheia os amores de Florbela

Chega a brincar com as fitas do vestido da queiroziana Maria Eduarda.

Em busca de afinidades, debruça-se sobre as páginas escritas por Luís Sepúlveda.

Vocacionado para a aventura, escolhe a companhia de John le Carré; com Tolkien conquista mundos imaginários.

Com Carl Sagan desvenda os mistérios do universo.

Acarinha Victorino de Almeida e Mia Couto.

O seu maior afecto vai, indiscutivelmente, para os livros de arte. Com particular incidência na pintura, impressionista, de preferência. Brinca com os nenúfares de Monet.

Trata os livros como o mais apaixonado dos bibliófilos. Acarinha-os sob o seu corpo, moldando-se a eles.

Uma vez por outra, fazendo jus ao nome, mostra as suas garras, e alguém sofre com a expressividade da sua natural rebeldia.

Vive e sonha entre prateleiras repletas de livros. É o que se pode dizer, com toda a propriedade, uma vida vivida entre grandes e muitos saberes!

Ele, o nosso gato livreiro, de nome Gil Vicente, que há um ano encerrou as páginas do livro da sua vida.

Hoje, ele é talvez a história de um livro por escrever...

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Comentários:

Luis Eme disse...
Que lindas homenagens ao nosso "Zé" e também ao Gil Vicente, um apreciador raro de boa literatura...
14 de Junho de 2007 1:11

segunda-feira, 11 de junho de 2007

59.ª Página Caldense


ALMANAQUE DE CARICATURAS PARA 1876
RAFAEL BORDALO PINHEIRO e MANUEL DE MACEDO
3.º Ano - Livraria Editora -Praça de D. Pedro, 68, Lisboa


"Rafael Bordalo Pinheiro

Foi ele o iniciador d'este almanaque, onde o seu prestigioso lápis exibiu sorrisos e gargalhadas em todos os tins. Já não o vemos por essa ruas, falando a toda a gente e tudo observando com a sua luneta d'um vidro só. 2.000 léguas o separam de nós. Assentou seus arraiais além dos mares, onde o verdadeiro talento tem sempre afectuosa colheita."[...]

[Pág. 47 a 60]

[Almanaque com 64 páginas + capas. Capa a cores. Dimensão: 14,60 x 21,00 cms. Ilustrações assinadas por RBP: Capa / 1 ilustração na folha de rosto /6 ilustrações cabeçalhos calendários (págs 3 a 8) / 1 ilustração - tabela de Enchentes e vasantes (pág. 9) / 10 ilustrações num texto intitulado Cecilio e a Guitarra (pág. 19 a 26) / 2 ilustrações - O Passeio Público em Lisboa (Págs. 32 e 33) / 1 ilustração de página (Pág. 37) / 25 ilustrações - páginas 50 a 60 relatando a viagem do autor para o Brasil. Preço: 200 réis.]

domingo, 10 de junho de 2007

58.ª Página Caldense


ADVERTENCIAS SOBRE OS ABUSOS, E LEGITIMO USO DAS AGUAS MINERAES DAS CALDAS DA RAINHA, PARA SERVIR DE REGULAMENTO AOS ENFERMOS QUE DELLAS TEM PRECISÃO REAL.

PUBLICADAS DE ORDEM DA ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS DE LISBOA.
POR FANCISCO TAVARES

Sócio da mesma Academia, e lente de Prima e Decano da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra.
Lisboa
na officina da mesma Academia Real anno de M. DCC. XCI

"Introdução

I - Do preparo

II - Do tempo

III - Da quantidade

IV - Do modo

- Uso interno

. Quantidade

. Intervalo

. Passeio

- Uso externo

. Banho

. Clister

V - Da dieta

- Ar

- Comida, bebida

- Movimento e quietação

- Sono e Vigia

- Detenção e excreção

- Afectos d'animo

- Adicção

Catálogos"

[Livro com com 37 páginas numeradas + páginas de rosto + 2 páginas de Catalogo + 4 de Introdução. Exemplar sem capa. Dimensão:14,50 x 20,50 cms.]

sábado, 9 de junho de 2007

57.ª Página Caldense

RAFAEL BORDALO PINHEIRO
PONTOS NOS II
2 de Junho de 1887

S. Gomes Neto, Advogado das Caldas

"Uma vez que ele tomou as Caldas sob a sua divina protecção, aqui lhe levantamos um altar, e lhe rezamos um terço, e lhe oferecemos umas sobrecasaquinhas de cera, e lhe acendemos uns tocheiros, e lhe pregamos as abas na sobrecasaca com ancoras, para que a ventaneira das ditas abas não apague a luz das tochas.

Se continuar com a mesma boa vontade, havemos de lhe fazer um círio que meta num chinelo afamado da Senhora do Cabo!"

[Pontos nos ii, jornal de Rafael Bordalo Pinheiro, publicado entre 1885 e 1891.Impresso na Litografia Guedes, em Lisboa.]

sexta-feira, 8 de junho de 2007

Isto é a Praça da Fruta


É manhã,
Manhã escolhida, louça…
Alaga o sol a praça inteira
Já palco de arraial e feira,
Chão de horta e pomar, jardim…
E dou comigo a falar para mim:
- É, é… É o típico rural,
Velho-relho e sempre novidade,
Certo, certinho, aqui, neste local,
Aqui, surpresa, ao centro da
Cidade


Cafés, bancos, lojas variadas,
Prédios de vária cor e porte,
Tantos de má cara, cara feia,
-Fachadas mal pintadas –
Talvez de boa vida
Mas dignos de má morte
-Ou merecem outra sorte ?-
Eis a moldura desta praça
Um tabuleiro, rectângulo vulgar,
Praça de basbaques, pasmaceira,
De passeios digestivos (e de amor…)
Assim mesmo bonitinha, buliçosa
Sala de visitas e … e tonta
Quadrilheira
Famosamente famosa…


Ora ei-la já tapete, colorida,
Gente a formigar, os olhos postos
Nas couves, nas laranjas, nas
Batatas,
Tensos em preços, qualidades, luta
Da compra e venda, diária disputa…
E eu a olhar aqueles rostos,
A beber, meio distante, o
Espectáculo,
Paisagem desfeita em paisagens,
Teatro inteiro vivo em mil
Imagens…
Olho os saloios… Nada picturais,
Semblantes secos, toscos, baços,
Egoístas, calculistas,
Terrenos, incolores, muito iguais…

Olho tudo. Busco tudo. Quero mais!...


Busco formas e cores de Malhoa
E almas, em frontes e perfis,
Almas próprias, ares, luzes,
- Essas que vêm de dentro até à pele –
Planos, perspectivas, emoções,
E, entre os sons, em vão, pregões,
Pregões dos campos, dos canteiros,
Os ditos de sabor pelos carreiros,
Ou risos, gargalhadas francas,
Uns gracejos, derretes, gritos moços,
Brigas de cores, gestos de bulícios,
Místicas pagãs, alvoroços,
Mas, do que busco, há pouco: só
Resquícios…



No entanto, não me tirem estas vistas,
Vistas de postais sem artifícios,
O oirinho desta praça só aspecto.
Leve clima mas clima original,
Do meu vagar, enigma formoso,
Recreio distinto, matinal,
Conforto sedativo e tónico gostoso…
Não me tirem esse encanto…

Estes saloios mercenários, pastores
De frutas, couves, flores…



Estas cenas vicentinas
Dos e tercetos de comadres
Olhantes, murmurantes,
Casquinando viperinas

Estes amoricos de cravos e rosinhas
Enleados, enleados,
Eles cavaleiros, elas princezinhas


Estes nédios napolitanos
Certos aqui, certos além, compadres
De ar solene, soberanos…


Esta estranja loira, aventureira,
Multilingue, multiforme,
Que pára, pasma, filma, fotografa
A Praça para si enorme
Coisinha feiticeira…

E a lusa ralé, olá
De toda a rosa dos ventos
Sabida finória, que vem cá
Gaiteira, alvoraçada,
E vai cheia do que pode, inchada,
Como se as famílias fossem
Regimentos…
E enfim a graça, graça auroral,
- De crescer água na boca –
De certa fruta viva, ondulante,
Fruta que na Praça se desloca,
Sumarenta, doce, aliciante,
Ou que perto paira, por janelas,
Descendo olhares Oh, quadradinhos…
Aos mocinhos esparrelas…



Afinal, curiosas conclusões:
Sob um tecto fino, azul toalha,
Impera aqui a Poesia,
Impera em nadinhas, em poalha,
Em chuva miudinha de aguarelas,
Mas… Céus! Quem tal diria!...
É uma poesia de comércio,
Uma poesia a dar dinheiro
Em fio certo, bom caudal,
Dinheirinho, hei, o feiticeiro,
Poesia século XX, afinal…



A Praça assim é que vale!
Sou dos desta teoria!
Vejo pouco? Vejo mal?
Saiba quem lê quem escuta:
Pois contei como a via,
Nesta clara descrição:
É isto a Praça da Fruta,
Esta a minha opinião…


Ah! Não! Não! Isto é um esquema,
Mármore meu dum próximo poema.



Luís Rosa Bruno
Gazeta das Caldas, 12 de Novembro de 1957

[Ao Joaquim Saloio, sempre generoso na cedência da sua colecção de postais, os meus agradecimentos.]

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Comentários:

Maria disse...
Não conhecia este texto...Foi preciso chegar ao oitavo postal para ver, lá ao fundo, o prédio onde nasci..Como era diferente dos tempos de hoje, a praça da fruta...Um abraço

10 de Junho de 2007 2:02

Luis Eme disse...
Brilhante...
10 de Junho de 2007 21:07